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O atrevimento dos informadores

1 – Os chamados «meios de comunicação social» desde há muito que têm especialistas para tudo. Para noticiar e comentar tudo: desporto, política, economia, finanças, história, cultura, tudo. Têm mesmo peritos em sub-especialidades, como é o caso das várias modalidades do desporto. Para tudo menos uma coisa – religião. Nesta matéria são de uma indigência confrangedora. Tanto mais confrangedora quanto não se inibem de, sobre ela, noticiarem erradamente e – sobretudo – opinarem ousadamente, sem conhecimentos nem fundamentos. 2 – Vem isto a propósito do generalizado «sururu» que se levantou em indignada reacção a um recente documento pastoral emitido pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente.Ora é imediatamente evidente, para quem conheça tal documento, que os muitos e apressados críticos o não conhecem. Isto é: ousam, atrevidamente, criticar o que não conhecem.O que provocou tal ousadia? Vamos por partes. 3 – a) Desde sempre, isto é, desde a sua fundação (ver v.g. entre outras fontes as epístolas de S. Paulo) , que a Igreja considera que o casamento (canónico) é um sacramento que imprime carácter. Por outras palavras: é indissolúvel. b) Resulta daí que, sempre que alguém canonicamente casado (os casamentos civis ou de não-católicos não têm que ver com este problema) se separa e volta a casar (desta vez civilmente), fica, perante a Igreja, em situação «irregular» pois que a mesma Igreja o considera ainda e sempre casado(a) com o primeiro cônjuge – o que lhe impede a frequência de sacramentos, nomeada e principalmente o da Eucaristia. c) Ninguém é obrigado a ser católico. Mas ser católico significa aderir a uma determinada Doutrina, professá-la e viver de acordo com ela – o que implica, nessa matéria, reconhecer e obedecer à autoridade da Igreja. Quem não aceita e não professa esta Doutrina (que implica, repito, esse reconhecimento e essa obediência) – está, automaticamente, fora da Igreja por sua auto-exclusão. Isto é, não é católico. E está no seu direito. (E isto é mesmo a maior das razões pelas quais não faz sentido o casamento canónico de não-católicos). d) Mas aderir a uma determinada Doutrina e professá-la é uma coisa. Viver, no dia a dia de acordo com ela é outra muito diferente e, normalmente, muito mais difícil. É o caso de alguém, de Fé católica, casado canonicamente, cuja união se desfez e, posteriormente, contraiu novo casamento, desta vez apenas civil. Não teve coragem para prosseguir o caminho sozinho(a) e assumir uma vida de celibato – o que não é humanamente exigível, nem à luz do senso comum, nem, muito menos, à luz da caridade (amor) cristã. E porque está convicto da sua Fé, dilacera-o(a) a contradição entre a Doutrina e a sua prática. Quanto mais intensa for a Fé mais intenso será o sofrimento. e) Consciente da crueldade deste drama, que, por vezes atinge mesmo patamares trágicos; imbuído do espírito de misericórdia da Igreja; pastor atento, convicto de que todos os de boa-vontade que o queiram podem entrar no seu rebanho; e ciente ainda da desumanidade e irrealismo da solução tradicional da abstinência sexual – o Papa Francisco, sem recusar esta última, veio propor novos e diferentes caminhos para a resolução de tão candente quanto generalizado problema. Sem prescindir do essencial da Doutrina, mas mexendo apenas em aspectos metodológicos e formais, abriu a porta de regresso à Igreja e à frequência dos sacramentos. f) Assim, e em consequência, publicou a exortação apostólica «Amoris Laetitia» em que dá indicações aos Bispos de todo o mundo quanto a esses novos caminhos possíveis, exortando-os a que os ponham em prática nas respectivas Dioceses, instruindo, nesse sentido os seus padres. 3 – Foi isso que fez – e só - o Cardeal Patriarca de Lisboa. Num extenso e cuidadosamente fundamentado documento, orienta os padres diocesanos quanto ao modo de percorrer esses novos caminhos segundo a exortação papal. E conclue com seis alíneas (6) que são outros tantos caminhos. E, uma delas – A ÚNICA QUE A COMUNICAÇãO SOCIAL LEU – refere a abstinência sexual do casal – como a Igreja desde sempre e até agora preconizou como única via possível. Até aqui, D. Manuel Clemente não veio dizer nada de novo Mas porque, em união com o pensamento do Papa, reconhece este caminho difícil, cruel e irrealista (e que só pode ser decisão íntima do casal) – e isto, sim é que é novo – então lá estão outros cinco caminhos em outras tantas alíneas, que, pelo visto, ninguém leu. E foi essa leitura distorcida que provocou tanta desinformação!!! Nota: por decisão do autor, este texto não obedece ao impropriamenta chamado acordo ortográfico.
Autor: M. Moura Pacheco
DM

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24 fevereiro 2018