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Quando os alicerces são fracos

O país político anda ainda de férias, ainda que as chamadas rentrées se tenham vindo a fazer, algumas mais exuberantes, outras mais modestas. Os motores vão sendo ligados para uma nova etapa, não se sabendo de que forma vão ser geridas as polémicas que ocupam debates, manchetes e, sobretudo, as relações entre o Governo e os partidos políticos, designadamente, o segundo e o terceiro mais votados nas últimas eleições legislativas. Os alicerces são fracos. Os dias de veraneio, tenham sido preenchidos com trabalho ou com descanso, não têm sido favoráveis a quem governa, do meu ponto de vista por culpa de quem governa. Montenegro devia ter ido de férias, para descansar, reflectir melhor no que se está a passar, definir propósitos e decisões que só dele dependem e poder preparar-se melhor para o que aí vem. Ao decidir ficar a trabalhar, talvez quisesse dar uma melhor ideia de si próprio, mas não conseguiu. Quem não ajuda a esclarecer as dúvidas dos seus pares, ainda que adversários, e dos cidadãos em geral, não é levado a sério. Aliás, tal decisão deu origem a narrativas que têm corroído ainda mais a percepção que as pessoas têm do próprio e da classe política em geral. Como não descansou, com o tempo vai acabar por evidenciar desgaste, falta de discernimento, mais autoritarismo nos meses que imediatamente se vão seguir. Há a preparação, a negociação, a apresentação e a discussão do Orçamento para 2027. Até pode ser que o Ministro das Finanças seja criativo e apresente medidas que dêem lugar a um salto qualitativo positivo; que a Ministra da Segurança Social não toque na questão da privatização das quotizações dos trabalhadores e das empresas portuguesas e até diga convictamente que tal não irá para a frente, nem agora nem mais tarde; que a Ministra da Saúde chegue de férias conciliada com os médicos, enfermeiros e outros trabalhadores do sector; que o Ministro da Administração Interna tenha conseguido bons indicadores na sinistralidade e no trânsito, na segurança e nos fogos florestais; que os demais Ministros tenham criado muito boa impressão. Mas, se não houver um esclarecimento cabal dos casos que incendiaram a política, sobre os quais Montenegro acusou de “censura moderna”, ainda na festa do Pontal, não haverá a credibilidade que os portugueses gostariam que os seus representantes tivessem. E vão estar sob mira desconfiada muitos que desempenham a sua função com toda a transparência e sentido de Estado. Ninguém olha para as “grandes coisas”, ainda que existam de verdade, se não é destruída pela raiz a mixórdia percepcionada por quem vota e por quem publica sobre os executores e oradores. A tendência natural é que se fale mais do que está mal do que está bem e isso o primeiro-ministro deve saber. Por que não faz nada? Está preso a quê? O que não é bem explicado deixa sempre dúvidas e quase todos sabemos que essas existem. Doutor Montenegro, esclareça e faça esclarecer de uma vez, demita ou demita-se, se for caso disso. A democracia precisa de alicerces consistentes e o actual Governo por maioria de razão. Quando os alicerces são fracos não há estrutura que se aguente, não aguenta um pequeno abalo, nem sequer uma ventania alegadamente “polémica”.


 

Não é justo, nem sério, que se alegue que há “censura moderna”. Se ela existe – sinceramente, acho que não tem existido intenção deliberada em prejudicar o Executivo, apenas apresentar a realidade e as dúvidas que os casos suscitam –, decorre de comportamentos desaconselhados por parte de alguns poucos actores políticos, comportamentos que antes tinham um desfecho previsível, responsável e incomparavelmente diferente. Até em governos de legislaturas bem anteriores à actual as consequências políticas se retiravam com mais desprendimento e determinação. A política já foi bem mais cuidada pelos seus actores!

Luís Martins

Luís Martins

25 agosto 2026