De um modo simples, podemos distinguir três reinos no globo terrestre: o mineral, o vegetal e o animal. Tudo o que existe é obra divina, tudo isto é por ter sido criado, mas as diferenças entre os três reinos são patentes.
O reino mineral não tem vida. O seu modo de ser é apenas material. O ouro brilha num anel porque alguém o descobriu, o purificou, o trabalhou...: o mérito não é seu. Já as plantas alimentam-se, crescem e reproduzem-se. Possuem um princípio vital a que se costuma chamar vida ou alma vegetativa. Podem estar com folhas, flores ou frutos; estar secas ou viçosas. Isso também é próprio da sua natureza, do seu ser, e não necessitam de intervenção alheia, embora ela possa influenciar o seu estar.
No reino animal, os modos de estar aumentam em qualidade e quantidade. A capacidade dos animais se alimentarem e reproduzirem vem acompanhada de uma sensibilidade à qual atribuímos o nome de instinto de sobrevivência (próprio ou da espécie). Possuem ainda uma necessidade de convívio ou comunicação que se manifesta em ocasiões temporárias (como no despertar da hibernação, ou na migração de bandos, manadas ou cardumes). A este modo de estar dos animais, mais diferenciado que os modos de estar anteriores, chamamos vida ou alma animal.
Até aqui, constatamos algo comum a estes três reinos: os seus modos de estar são “prisioneiros” dos seus modos de ser; não mudam, não evoluem , não são criativos.
O Homem, embora faça parte do reino animal, possui, além disso, alma espiritual, isto é, um princípio vital que o capacita a superar os seus instintos de defesa e sobrevivência mediante a liberdade. Ele possui o poder de escolher e executar o seu modo pessoal (e único) de estar, face ao espaço geográfico em que se encontra e ao período de tempo em que lhe é dado viver. Por outras palavras, o homem, por ser livre, pode (e deve) responsabilizar-se pelo seu modo de ser. Como? Crescendo! Crescendo física e espiritualmente, isto é, inteligentemente, usando o poder da sua vontade sobre os seus instintos, impulsos ou estímulos. O crescimento físico é comum nos reinos vegetal e animal. O crescimento espiritual, que começa pela curiosidade, a investigação, o estudo e a formação em vários campos, é exclusivo dos homens e termina com a sua vida terrena. Após a morte, o homem continua a ser aquilo que o seu tempo de vida, e o seu estar, lhe permitiram ser. Terá sempre as características próprias do ser humano (como o ser homem ou mulher), mas será médico, cozinheiro, trapezista... durante períodos de tempo em que irá ganhar, ou perder, a capacidade de exercer as suas várias aptidões.
Tentemos explicar melhor esta frase. Deus criou o Homem “à sua imagem e semelhança”. Então, o Homem (com maiúscula) deve ser semelhante a Deus. Deverá ser filho adotivo de Deus. No que respeita ao seu ser, à sua existência, o mérito não é seu. O mérito pertence ao Criador e aos pais dessa pessoa. Durante o crescimento (físico e espiritual) da pessoa concebida, o mérito dessa pessoa vai aumentando à medida que, com a ajuda dos pais e formadores, o seu modo de estar se aproxima do modo de ser “à imagem e semelhança” de Deus. Assim, o bebé que morre batizado é, logo e para sempre, imagem e semelhança de Deus. A sua vocação foi alcançada apenas graças a seus pais e ao sacramento recebido. Os sofrimentos próprios da sua morte foram vividos e partilhados com Cristo por todos os crentes, em Igreja.
Durante o crescimento, a criança deve aprender a ser cada vez mais imagem e semelhança de Deus. Os pais devem ser os primeiros professores e orientadores, nos modos de estar, para que ela cresça em “sabedoria, graça e estatura”, segundo o modo de ser da sua vocação: a santidade. Alguém identificou cada santo como a pessoa que chega ao céu levando uma torrente de pessoas atrás.
É pelo modo de estar, crescendo, que se pode agradecer, a Deus e aos santos, o ter-se conseguido chegar a ser uma singular imagem e semelhança de Deus.