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Não se acreditou na regeneração batismal até Agostinho de Hipona

Recusando o facto de o Batismo operar uma renovação real (e não apenas legal) na pessoa que acolhe esse Sacramento, os nossos irmãos protestantes afirmam que a doutrina cristã nunca susteve a dita regeneração, integral e profunda, até Santo Agostinho. Se assim o fazem, fazem-no no esforço de – não obstante serem muito devedores de algumas teses deste Teólogo (falecido em 430 na cidade de Hipona) – tentarem mostrar que a teologia da renovação espiritual batismal é uma ideia tardia e errônea.

Infelizmente e mais uma vez, os factos históricos não permitem que se diga isso. Já em meados do Século III, Cipriano de Cartago defendera, de modo sustentado e veemente, a regeneração batismal, não como se isso fosse uma novidade, antes algo na esteia de diversas, ainda que esparsas, asserções teológicas anteriores sobre o facto do Batismo não ser um mero símbolo externo sem poder transformativo.

Antes de me referir mais demoradamente àquele bispo de Cartago, começarei por apresentar alguns dos elos da Tradição que são prévios à grande teologia batismal de Cipriano.

Ora bem, no final do séc. I e num dos primeiros estratos redaccionais do (que será o) n.º 11 da “Epístola de Barnabé”, já se lê que «mergulhamos na água cheios de pecados e impurezas, mas saímos dela, dando fruto no nosso coração (…) e a fé em Jesus no nosso espírito».

Em meados do séc. II e no capítulo 61 da sua “Primeira Apologia”, Justino de Siquém já afirmara que o sujeito que recebia o Batismo «é levado até onde há água e é regenerado», espiritualmente, segundo um rito «aprendido dos apóstolos».

Pouco antes de Cipriano, Orígenes de Alexandria diz que «a regeneração ocorreu (…) com Jesus e, por intermédio dos Seus discípulos, o que se denomina “lavatório da regeneração” realiza a renovação espiritual» (“Comentário ao Evangelho de João”, 6, 17”).

Pese embora o que elenquei seja claríssimo, ele surge, contudo, de uma forma não totalmente desenvolvida de forma estruturada. Para termos isso, é essencial o testemunho de Cipriano de Cartago, que afirmou, enérgica e organicamente, que a regeneração batismal é essencial para a Salvação, considerando-a como a purificação espiritual dos pecados e o início de uma real, verdadeira e intimíssima “vida nova”.

Isto pode ser visto, sobretudo, no capítulo 4 do seu escrito “A Donato” e nos números 5 e 6 da sua “Carta” 73. Estes textos revelam a preocupação de Cipriano de Cartago em vincar que, através da água e do Espírito Santo em uníssono, as pessoas renascem e são purificadas, naquilo que opera nelas, não uma mera mudança no modo como Deus as considera, mas uma profunda transformação espiritual a nível da totalidade dos seus próprios seres.

Esta transformação é o resultado de uma ação divina que produz resultados imediatos e concretos para o crente, a nível espiritual, moral e jurídico perante Deus. Sim: “jurídico”; contudo, não no sentido medieval-declarativo-protestante, mas no evangélico-operante da teologia romana, que atestava uma entrada “legal” numa “família nova” em que a “velha natureza” fora deveras “destruída” para dar lugar a uma “natureza nova” inserida em Cristo.

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

22 agosto 2026