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De quatro linhas a uma carreira

 



 

A mobilidade é um dos maiores desafios de Braga e um teste à capacidade de governação. Exige visão, prioridades claras e, sobretudo, capacidade de execução. O percurso do BRT nos últimos anos demonstra precisamente o contrário. Mais do que discutir um modelo de transporte, importa perceber como Braga passou de um projeto urbano financiado para uma situação em que continua sem qualquer solução concreta para resolver os seus principais problemas de mobilidade.

O projeto inicialmente apresentado previa uma rede de quatro linhas de BRT para o concelho. A Iniciativa Liberal nunca considerou que essa fosse a solução ideal, mas existia um projeto concreto, financiamento europeu e um calendário de execução. A primeira etapa era a Linha Vermelha, entre a Estação Ferroviária, a Universidade do Minho e o Hospital de Braga, adjudicada em outubro de 2025 por cerca de 32 milhões de euros, com financiamento do PRR.

Poucos meses depois, tudo mudou. João Rodrigues abandonou o projeto, justificando a decisão com a ideia de que “o problema está cá dentro, mas a solução está fora”. A prioridade deixava de ser Braga para passar a ser uma estratégia regional centrada na futura estação de Alta Velocidade e numa ligação entre Braga e Guimarães. Em abril confirmou-se a perda do financiamento europeu. Em julho surgiu o anúncio do chamado BRT Braga - Guimarães.

À primeira vista, parecia a concretização dessa estratégia. Mas basta olhar para o projeto para perceber a contradição. A única fase prevista até 2030 liga Guimarães às Caldas das Taipas. Braga continua sem qualquer intervenção calendarizada. Entretanto, o discurso político volta a mudar. Depois de a solução estar nas ligações regionais, passa agora a defender-se que nenhuma intervenção deverá avançar antes da conclusão da Circular Externa. Rever prioridades faz parte da governação. O problema começa quando muda o diagnóstico, mas nenhuma solução chega ao terreno.

É neste contexto que importa olhar para aquilo que hoje é apresentado como resposta para a região. Apesar da designação utilizada, o chamado BRT Braga - Guimarães não passa, na prática, de uma carreira rodoviária. A própria primeira fase demonstra-o: aquilo que é anunciado como uma ligação entre Braga e Guimarães termina, afinal, nas Taipas. Mais do que uma questão de nomenclatura, trata-se de adequação. O nome do projeto sugere uma resposta regional que, pelo menos nesta primeira fase, simplesmente não existe.

Esta semana soube-se que a viagem entre Braga e Guimarães deverá demorar cerca de 30 minutos, quando hoje um autocarro pela autoestrada faz o percurso em aproximadamente 20. Mais do que discutir dez minutos, importa discutir ambição. Uma infraestrutura estruturante deveria tornar o transporte coletivo mais competitivo. Quando o próprio projeto prevê tempos de viagem superiores aos do serviço atual, é legítimo perguntar se estamos perante uma verdadeira transformação da mobilidade ou apenas perante uma nova designação para uma realidade muito semelhante.

Braga e Guimarães constituem um dos maiores polos urbanos do país. Milhares de pessoas deslocam-se diariamente entre os dois concelhos para trabalhar, estudar ou aceder a serviços. Um corredor desta importância exige uma ligação ferroviária moderna, integrada e preparada para responder às próximas décadas. Substituir essa ambição por uma carreira rodoviária representa um enorme custo de oportunidade: cada escolha política afasta inevitavelmente outras alternativas. Cada euro investido, cada prioridade e cada ano dedicado a esta solução tornam mais distante a infraestrutura ferroviária de que a região continua a precisar, condicionando decisões futuras e reduzindo a ambição com que este eixo estratégico é pensado.

O verdadeiro problema nunca foi o BRT. Foi a incapacidade de manter um rumo. Braga passou de um projeto urbano financiado para uma carreira apresentada como resposta à mobilidade regional, enquanto prioridades e justificações mudavam sucessivamente. A região merece melhor. Merece uma estratégia consistente, capaz de distinguir soluções transitórias de investimentos estruturantes e uma liderança que compreenda que governar não é anunciar constantemente novas prioridades. É definir uma visão, mantê-la e concretizá-la.



 

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Bernardo Gonçalves

19 julho 2026