Há palavras que correm hoje o risco de se tornarem devocionalmente úteis e pastoralmente inócuas: a “sinodalidade” é uma delas. Repete-se em documentos, encontros, assembleias e programas. Contudo, se não gerar formas verificáveis de relação, de decisão e de missão, acabará por sobreviver apenas como retórica eclesiástica. O Documento Final do Sínodo tem o mérito de recentrar a questão: a sinodalidade não se mede pela frequência com que é invocada, mas pelos critérios concretos que tornam visível uma Igreja que vive a comunhão, promove a participação e se abre verdadeiramente à missão.
O primeiro critério é talvez o mais exigente de todos: a Igreja tem de deixar de se comportar como espaço fechado, autorreferencial e defensivo, para se tornar casa habitável. Isso implica hospitalidade real, inclusão, respeito pela dignidade de cada pessoa, capacidade de reconhecer a unidade na diversidade e de acolher a pluralidade sem a viver como ameaça. Uma Igreja sinodal não é uma comunidade uniformizada; é uma comunhão espiritualmente fundada, capaz de escutar a Palavra, de rezar, de celebrar a Eucaristia como fonte de unidade e de aprender também com o diálogo ecuménico e inter-religioso. Sem esta conversão relacional, a sinodalidade degrada-se em simples mecanismo organizativo.
Mas não basta acolher, é preciso partilhar responsabilidades. Uma sinodalidade séria exige participação efetiva nos processos de decisão. Não se trata de transpor para a Igreja modelos políticos, mas de levar a sério que todo o Povo de Deus participa, segundo a diversidade de vocações e responsabilidades, no discernimento comum. Para isso, a consulta não pode ser decorativa. O objeto do discernimento deve ser claro, a informação relevante tem de estar disponível e a autoridade deve assumir com transparência onde reside a responsabilidade última. Só assim se evita a frustração de processos aparentemente participativos que, no fundo, já trazem a decisão previamente definida.
Outro critério decisivo é a corresponsabilidade. Enquanto a linguagem sinodal não se traduzir numa distribuição mais ampla de tarefas e responsabilidades, continuaremos a confundir participação com colaboração subalterna. A Igreja não será sinodal enquanto continuar a reservar a uns o protagonismo do pensar e do decidir, deixando a outros apenas a execução. Isto vale também para a valorização dos leigos, homens e mulheres, para o reconhecimento dos carismas e para a coragem de distinguir o que pertence propriamente aos ministérios ordenados do que pode e deve ser confiado a outros. A isto junta-se um ponto muitas vezes esquecido: a responsabilização. Quem decide deve explicar as razões, quem participa deve poder avaliar honestamente os processos e os resultados.
Há ainda dois sinais de autenticidade particularmente importantes. O primeiro é o respeito pelos diferentes ritmos das distintas comunidades: a sinodalidade não se impõe por sincronização burocrática, mas cresce segundo processos reais de receção, maturação e enriquecimento mútuo. O segundo é a formação: não apenas doutrinal, mas humana, espiritual e pastoral, para a escuta, a colaboração, a reflexão e o discernimento em comum. Sem formação teologicamente sólida, haverá entusiasmo momentâneo; mas não haverá cultura sinodal.
Por fim, a sinodalidade só é cristã se for missionária. Não existe para se contemplar a si própria, mas para tornar mais fiel a Igreja à sua missão, centrada em Jesus Cristo e no testemunho do Evangelho no meio do mundo. Quando a sinodalidade perde densidade espiritual, reduz-se a mera gestão organizacional. Quando, pelo contrário, se enraíza no amor recíproco, na escuta da Palavra, na conversão pastoral e na atenção aos contextos culturais concretos, então deixa de ser slogan. Torna-se forma eclesial. E só nesse momento a Igreja deixa de falar em caminho comum e começa, de facto, a caminhar.