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Nem tudo o que desaparece é uma perda – e nem toda a perda desaparece

 


 

 



 

Vivemos numa época em que aprendemos a medir a vida pelo que acumulamos. Acumulamos experiências, fotografias, contactos, conquistas, etapas. Crescer parece significar, quase sempre, acrescentar: mais conhecimento, mais estabilidade, mais possibilidades. Mas há uma verdade silenciosa que raramente ocupa lugar nas conversas do dia-a-dia: viver implica também perder. Perdemos pessoas. Mas perdemos igualmente lugares, versões de nós próprios, ideias sobre o futuro, papéis que desempenhávamos, projetos que nunca aconteceram e fases da vida que terminaram sem aviso. Perdemos formas de olhar para o mundo e, por vezes, até as certezas sobre quem julgávamos ser.

Nos últimos anos, o meu trabalho sobre o luto tem-me mostrado que nem todas as perdas recebem reconhecimento social. Algumas não têm rituais. Não há flores, não há cerimónias, não há dias assinalados no calendário. Penso, por exemplo, nas perdas gestacionais e perinatais, frequentemente vividas sem palavras, rituais ou reconhecimento. Mas há muitas outras: o desemprego, o divórcio, a doença crónica ou uma amizade que se desvanece sem explicação. Fica apenas a sensação de que alguma coisa mudou e já não volta a ser igual. É precisamente por não encontrarem lugar na linguagem, nos rituais ou no olhar dos outros que estas perdas são tão difíceis de partilhar.

Crescemos a acreditar que perder significa, inevitavelmente, ficar sem. Como se a ausência fosse sempre o contrário da presença. Como se aquilo que termina deixasse automaticamente de existir dentro de nós. A experiência humana mostra-nos exatamente o contrário: há perdas que retiram e há perdas que transformam. Há amizades que chegam ao fim e nos ensinam novas formas de compreender os outros. Há empregos que terminam e revelam capacidades que desconhecíamos possuir. Há relações que acabam e nos ajudam a reconhecer limites, necessidades e maneiras diferentes de amar. Há sonhos que nunca se concretizam e que, ainda assim, abrem espaço para caminhos que jamais imaginaríamos percorrer. Nem tudo o que desaparece deixa apenas um vazio.

Descobrimos também que nem tudo o que perdemos desaparece verdadeiramente. Há pessoas que continuam presentes nos gestos que repetimos sem pensar. Há casas onde já não vivemos, mas que continuamos a habitar em memória. Há conversas antigas que ainda orientam decisões muitos anos depois. Há experiências difíceis que permanecem, não como feridas abertas, mas como parte integrante da nossa história. A escuta de quem atravessa o luto ensinou-me também que a memória não é o oposto do futuro; é a matéria com que o futuro se constrói.

É por isso que frases como "já passou", "tens de seguir em frente" ou "não podes ficar preso ao passado" raramente fazem justiça ao que significa viver. Seguir em frente não é apagar o passado nem abandonar aquilo que fomos; é aprender a caminhar com tudo o que nos constituiu. É essa a principal lição que o estudo do luto me tem ensinado. Amadurecer não consiste em aprender a não perder, mas em reconhecer que a identidade se constrói também através das perdas e da forma como as integramos na nossa história.

O primeiro passo não é evitar a perda, mas reconhecê-la. Nomeá-la não elimina a dor, mas impede que tenha de ser vivida em silêncio. No fundo, a vida nunca se mede apenas pelo que conseguimos acumular; mede-se também pela forma como damos sentido ao que perdemos. Porque uma sociedade que não reconhece as perdas invisíveis acaba, muitas vezes, por invisibilizar também quem as vive.

Clarisse Queirós

Clarisse Queirós

19 julho 2026