Tinha pensado interromper estas partilhas durante estes meses de férias. Um encontro de rua fez-me fez-me mudar de ideias.
No meu programa diário, depois da celebração da Eucaristia, procuro caminhar um pouco pelas ruas da cidade. Há sempre encontros: alguns a recordar o passado, com conversas de memória; outros rotineiros, com diálogo ou sem diálogo. Há um que acontece todos os dias, ou quase todos os dias. Trata-se de um sem-abrigo com quem repito conversas. Nada de novo, mas, da minha parte, um pouco de atenção e, talvez, algumas palavras que possam dar outro sentido à sua vida.
No dia de S. Bento, sábado, onze de julho, foi ele quem iniciou a conversa com uma frase que me deixou a pensar: «A paz é tudo.» O diálogo foi curto, pois não valeria muito a pena prolongá-lo. Quero, neste momento, continuar a pensar em voz alta.
Não me aventuro a levantar conjeturas sobre o problema mais grave da sociedade moderna. Parece que fomos condenados a viver em confrontos bélicos, onde tudo se investe para matar e destruir. Quero situar-me noutro contexto. Tenho de reconhecer que a paz não é algo que se possa ter ou não ter. Só sei que cada um viverá verdadeiramente se ela existir dentro de si. Não é o bem-estar que oferece a alegria de viver, nem são as contas no banco que proporcionam a verdadeira realização. Dentro de cada um reside aquilo de que verdadeiramente faz falta: a paz. Se ela existe, o mundo é diferente; se não a encontramos no coração, tudo se torna cinzento, por melhores condições que possamos possuir.
Ela é, de verdade, tudo. Sim, tudo. Com ela não precisamos de mais nada, porque conseguiremos, mesmo rodeados de problemas, encontrar o fio à meada.
Acontece, porém, que a paz não é algo passivo. Para ser autêntica, ela tem de ser ativa. Ou seja, quem é pacífico terá de ser construtor de paz. Não precisa de procurar muito para encontrar momentos de concretização. A «guerra», como ausência de paz, reside, muitas vezes, ao lado de casa e, quase sempre, naqueles com quem fomos construindo a vida ou com quem nos encontramos ocasionalmente. Hoje, impera a indiferença ou a ideia de que cada um deverá resolver os seus problemas e de que “nada tenho a ver com isso”. Não é a lei da selva, mas o mais comum é «Cada um que se arranje.»
Não sou pessimista. Reconheço e conheço tantas pessoas que, diariamente, acordam com o mundo da proximidade no coração e se deixam questionar sobre aquilo que podem ou devem fazer. A generosidade e o espírito de sacrifício pelos outros nem sempre passam para as páginas dos jornais. A oferta da paz é, muitas vezes, verdadeiramente heroica. Basta imaginar o que acontece no campo do voluntariado.
Sou, porém, um pouco mais exigente. Precisamos de uma paz construída no silêncio e no imprevisto da vida familiar, laboral e eclesial. O bem não deve fazer muito barulho, mas deve circular e tornar-se o óleo que permite o bom funcionamento da sociedade, nos mais variados ambientes.
Isto conduz-me à célebre oração atribuída a S. Francisco. Quem não a conhece? Rezá-la diariamente poderia ser um compromisso. O tempo de férias deveria ser, por outro lado, um espaço para que a consciência nos apontasse os lugares onde a poderemos concretizar, quando mergulharmos no barulho e na azáfama do quotidiano: «Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz.»
O nascimento de Cristo foi anunciado como um acontecimento de paz. Essa paz nunca se realizou plenamente até aos dias de hoje, mas a história da Igreja testemunha que, ao longo dos séculos, houve tanto heroísmo silencioso que ele deve regressar às nossas opções. Ser instrumento da paz que Cristo quer oferecer é o caminho que a Igreja, nos seus discípulos, terá de percorrer hoje. Todos os dias, a todas as horas, para com todos, conhecidos ou desconhecidos, presencialmente ou através dos meios digitais, com palavras ou com simples gestos, a Igreja mostrará a quem mata e destrói com as armas que o caminho terá, necessariamente, de ser outro. Esta é a originalidade de que ninguém nos poderá dispensar.
Não necessito de elencar situações. S. Francisco iniciou a lista, e cada um terá de a completar. Há por aí tanto ódio, ofensa, discórdia, dúvida, erro, desespero, tristeza, trevas... Tudo isto são apontamentos que me dizem que é quando morro no dom do meu tempo e no gastar das minhas energias que estou a construir um mundo de fraternidade e amor e a garantir aquilo que contará, para mim, na eternidade.
«A paz vale tudo.» Aquele sem-abrigo incomodou-me. Continuei a caminhada desse dia com outros olhos. Sei que apenas escrevi banalidades, coisas conhecidas e tantas vezes repetidas. Como sempre, cessem as palavras e enveredemos pelas atitudes.
Para mim, aquele encontro não foi inútil. Incomodou-me, verdadeiramente.