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Foi a fé no Evangelho que fez a Igreja do séc. III readmitir quem dela se apartara

 



 

Já tive a oportunidade de trazer até vós a referência de que, aquando das mais variadas perseguições contra os cristãos durante o século III, houve muitos fiéis que, de uma forma ou de outra, e inclusive até à apostasia prática, afastaram-se de uma vida cristã para não perderem as suas posses, o seu estatuto ou a até a sua vida.

Também já pude fazer uma breve referência ao facto de que, ante a realidade mencionada, houve diferentes posições teológicas e pastorais, desde as que, numa linguagem comum nos debates então sucedidos, encaravam a Igreja como a Arca de Noé com o seu restrito número de seres humanos poupados ao cataclismo do dilúvio às que, socorrendo-se da mesma imagem de tal arca, referiam que nela entrou todo o género de animais, dos tidos, pela patente em alguns elementos da Lei veterotestamentária, como puros aos impuros.

Esses debates foram, compreensivelmente, intensos, pois, em derradeira análise, orbitavam temáticas muito relevantes: o que é a Igreja; quem pode fazer parte da Igreja?; como se pode passar a ser um membro da Igreja?; em que circunstâncias é que dissidências doutrinais ou desalinhos comportamentais implicariam o afastamento (de distintos modos e durante períodos diversos) da Igreja?; tinha a Igreja o poder de readmitir no seu seio quem dela se afastara?; e, caso a resposta a esta última questão fosse afirmativa, de que modo?

Não tenhamos dúvidas: o Cristianismo estava, no século III, a atravessar um período de profunda crise de definição identitária, na qual também influía uma pesada dimensão pessoal psicológica. A saber: como é que se poderia quase que passar uma “esponja” sobre quem se apartara da Igreja e da fé desta, enquanto se silenciavam as preocupações daqueles que foram torturados, desfigurados e exilados por se terem mantido firmemente contra as imposições de enveredarem por práticas contrárias à dita fé?

No fundo, e vendo-se o acima apresentado de uma forma o mais imparcial possível, o dilema era o de se saber se a Igreja deveria ser “misericordiosa” ou “rigorosa”; se devia ser um vasto continente para os pecadores, ou uma ilha isolada para quem tivera a força de se manter coerente (às vezes, através de atrozes suplícios) com todas as exigências da existência cristã.

Uma certa linha expositiva, muito preocupada em sustentar que a Igreja agiu em cada momento da sua história da forma mais adequada em fidelidade ao Evangelho incarnado nessa ocasião, aduz(iu) que a posição ortodoxa face aos dilemas apresentados só podia ser uma: optar por processos de compaixão e acolhimento que expressassem a paciência e a bondade incondicionais de Deus. E isto, em oposição a quem desejava mostrar que a seriedade da vida cristã não pode tolerar cedências ante um multifacetado instinto de preservação.

Isto era uma falsa oposição: a seriedade da fé cristã identifica-se com o perdão e inclusive o perdão a quem se pode pensar ser menos merecedor dele. Mas, dito isto, uma verdade final deve ser agora exposta. Uma que exibe a dimensão em parte mítica do que é dito no título deste texto: a opção da Grande Igreja por uma postura mais reconciliadora foi também, e em grande parte, fruto da “pressão dos números”. Ou seja: se a Igreja tivesse eleito resumir-se aos «fortes», teria perdido incalculáveis fiéis, donde, “os «fracos» fizeram a Igreja clemente”.

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

18 julho 2026