A aldeia dos meus avós paternos fica a entre quinze e vinte minutos de viagem de automóvel a partir do centro da cidade de Braga. Há 50 anos, a deslocação era bem mais demorada e perigosa, por uma estrada que, numa altura como esta de invernia, estaria, talvez, intransitável. Quem quisesse vir à cidade e não possuísse viatura própria apenas podia dispor de uma camioneta que passava pela aldeia de manhã cedo e ao fim da tarde. Não circulavam autocarros a todas as horas como hoje, sendo certo que há cinco décadas muito raramente alguém ia à cidade. As pessoas da freguesia que tinham automóvel contavam-se pelos dedos de uma mão.
A lista do que há 50 anos não havia é inimaginável para os mais novos e os mais velhos já nem dela, talvez, se lembrem. Não eram só os transportes públicos que escasseavam. Faltava quase tudo. À aldeia não chegava a electricidade. As casas, assim como os caminhos públicos, não tinham, pois, luz eléctrica. As casas também não dispunham de água canalizada. Nem de saneamento básico. No Inverno, eram casas gélidas. A palavra conforto era desconhecida. Quem não viveu esse período é incapaz de imaginar o que era a vida na altura. A generalidade das comodidades hoje banais não existia. A pobreza era muita e muito severa. A fome existia. A miséria abundava.
Hoje, as casas da aldeia dos meus avós têm o que têm as casas da cidade. Além de água canalizada, de luz e de saneamento básico e de ser servida por uma rede de transportes públicos confortáveis e regulares, a aldeia tem múltiplos equipamentos ao serviço da população. Tantas coisas. Aquilo de que hoje os habitantes usufruem chegou após o 25 de Abril de 1974, graças, designadamente, e é preciso lembrá-lo, ao poder local democrático. As condições de vida material melhoraram de tal modo que não é exagero dizer que um abismo separa o antes e o após 25 de Abril.
Há ainda muito por fazer para ter um país melhor. Mais justo.
E, sim, importa ambicionar um país sem corrupção. Contra ela tem, aliás, lutado bastante gente e desde há bastante tempo, gente que não usa o combate à corrupção como um pretexto para, apenas, acicatar o ódio contra os pobres e, sendo conveniente, contra os ricos, se já tiverem perdido o poder de que dispuseram.
Antes de 25 de Abril, é verdade, não se falava de corrupção – o tópico que a extrema-direita usa para atacar o regime democrático. Se não se falava, era apenas porque os Serviços de Censura impediam a existência de uma imprensa livre que pudesse noticiar a ocorrência da panóplia de crimes e delitos com que hoje as televisões, a todo o instante, alimentam a morbidez de muitos telespectadores. A censura faz desaparecer os problemas. Mas, mesmo com ela, sabia-se que havia corrupção [1]. Pelo menos, a corrupção mais vulgar. Não eram poucos os que conheciam quem prometia, a troco de dinheiro, livrar da tropa um rapaz da terra. E qualquer um deles bem desejava livrar-se de ir para a guerra colonial, de que regressaria, se regressasse, quase invariavelmente com sequelas íntimas inultrapassáveis. O que o 25 de Abril trouxe à aldeia dos meus avós paternos foi muitíssimo. E retirou do horizonte de todos os rapazes a obrigação de partir para a guerra.
Após o 25 de Abril, sublinhemo-lo, muito foi melhorando. O trabalho infantil, frequentemente um trabalho realizado em condições pungentes, que impedia que um elevado número de crianças pobres pudesse estudar e realizar-se em áreas antes apenas acessíveis aos filhos dos ricos, foi erradicado. Na aldeia dos meus avós paternos, as crianças e os jovens de hoje vivem incomparavelmente melhor. Os últimos 50 anos não foram, por isso, o período negro odiado pelo partido do ressentimento que serve de albergue a quem não obteve o que queria nos partidos em que antes tinha militado, a hooligans da extrema-direita e a bolsonaristas.
Evidentemente que se poderia ter feito mais. Claro que se poderia ter feito melhor. Merecemos um país mais igual. Precisamos de um Estado que ajude os mais frágeis e que enfrente os que o querem capturar em proveito próprio. Precisamos de uma economia que, para beneficiar poucos, não explore tantos. Precisamos de lutar por mais e melhor, por muito mais e muito melhor.
“A paz, o pão, habitação, saúde, educação”, canta tão bem Sérgio Godinho. Precisamos de mais e melhor cidadania. Com valores democráticos. Que não ignore o que se avançou e que lute pelo bem comum. No próximo domingo, importa votar, e votar contra o candidato que se comporta como um fanfarrão que usa o seu partido, um instrumento de reciclagem do refugo partidário, como mero propulsor da sua egolatria.
Espero que, na freguesia dos meus avós paternos, o voto no próximo domingo não seja de nostalgia pelo tempo sombrio em que as pessoas, em casa, não tinham água, luz eléctrica, saneamento básico ou, tantas vezes, comida bastante; em que não tinham tudo aquilo que o 25 de Abril e a democracia lhes permitiu conquistar.
Domingo é preciso ir votar. E em António José Seguro.
[1] Quem quiser perceber como era a corrupção no Estado Novo pode ler, por exemplo, de Marco Alves, Salazar confidencial. A história secreta da rede de cunhas e favores do Estado Novo (Ideias de Ler, 2023).