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Vou votar pela primeira vez

 

Foi uma das pessoas que nas últimas legislativas não hesitou em vestir a camisola que lhe ofereci para fazer campanha contra a Abstenção, apelando à ida às urnas. Nos seus 62 anos, Helena Cardoso de Sousa, conhecida por muitos bracarenses, como a Mariazinha da mercearia que lhe dá o nome, na rua de S. Marcos, vai votar pela primeira vez. Fiquei a saber da história quando a vereadora da cultura, Catarina Miranda, acompanhava o presidente da Câmara, João Rodrigues, no café Favorita, propriedade da protagonista desta história e dos filhos. Quis falar com ela para perceber porque demorou 51 anos a tomar a decisão de votar pela primeira vez, o que fará, diz-me, “de forma convicta”, no agrupamento de freguesias de Nogueira, Fraião e Lamaçães. A sua história de vida foi feita longe de Braga, em S. João da Pesqueira, distrito de Viseu, onde nasceu Perdeu os pais ainda criança, mas sabia que o pai era um opositor do Estado novo, um homem de esquerda que não chegou a saborear o 25 de Abril, morrendo um ano antes. A mãe, do lado oposto da política, morreria um ano depois. Órfã, muito nova, acabaria por ser adotada por uma família dada a responsabilidades políticas e convicções ligadas ao regime de Salazar, desde presidente de câmara de S. João da Pesqueira a deputados à Assembleia Nacional. Quando se deu a Revolução dos Cravos, a família adotiva encostou-se ao CDS e ela aprendeu as cantilenas daquele partido, mas sem convicção. “Nunca consegui perceber de que lado estava, não tinha certezas”. Sabia o que não queria, mas não tinha a certeza” do caminho a seguir politicamente falando. Hoje, ao falar comigo, à porta do seu estabelecimento, esclarecida vezes sem conta por um dos seus filhos sobre as opções em presença, esta mulher, que sempre se considerou “uma leiga em matéria política, diz-se finalmente esclarecida. Depois de 1974, interessei-me, mas não me achava esclarecida e por isso não ia votar. Sorridente, diz-me agora de forma convicta: “vou votar pela Democracia” e remata “hoje sei o que sou!”. A Mariazinha fez parte até agora de um leque ainda muito elevado de bracarenses que se afastou das urnas ou, como ela, nunca votou. O seu exemplo de vida, dedicada ao trabalho, deixa-me feliz, não apenas pelo seu sentido de responsabilidade cívico tardio, é certo, mas pela convicção com que defendeu as suas ideias e afirmou as convicções que, me reconheceu, demoraram tempo e tiveram a ajuda do filho que seguiu as pisadas do avô. No dia 8, combinamos um encontro à porta da Junta de Freguesia onde irá pela vez exercer o seu direito e dever de votar. Que o faça por muito anos, de forma convincente e sobretudo esclarecida. É isso que se espera de todos. Até para a semana.

Paulo Sousa

Paulo Sousa

1 fevereiro 2026