Vivemos num tempo em que a vida se foi deixando traduzir pela linguagem do treino: metas, métricas, desempenho, superação. O que antes era “habitar” o mundo, com ritmos humanos e limites respeitados, tornou-se frequentemente um exercício contínuo de otimização. Byung-Chul Han descreveu esta mutação como passagem para uma “sociedade do desempenho”, onde o “tu consegues” assume a forma de um mandato permanente, gerando cansaço e autoexploração. Alain Ehrenberg leu a expansão do sofrimento depressivo como sintoma cultural de uma norma que exige iniciativa e autoprodução incessantes, produzindo, em muitos, uma “fadiga de ser-se a si mesmo”.
O problema torna-se particularmente grave quando esta lógica atravessa a porta de casa. A família, chamada a ser o primeiro lugar de repouso e recomposição interior, corre o risco de se transformar numa extensão do tribunal social: a criança vale se “se destaca”; o adolescente sente-se seguro apenas quando corresponde; os pais avaliam-se pelo currículo dos filhos; e a convivência doméstica é tomada por agendas, comparações e ansiedade. A casa deixa de ser morada e passa a ser vitrina. Ora, a saúde mental, como recorda a Organização Mundial da Saúde, não é apenas ausência de sintomas: é um estado de bem-estar que permite lidar com as tensões da vida, aprender, trabalhar e contribuir para a comunidade. Se o espaço familiar não protege este bem-estar possível, a vida inteira fica sem chão.
É precisamente aqui que a espiritualidade pode ser um antídoto, desde que seja vivida com maturidade. Em sentido amplo, espiritualidade designa a orientação da vida por um horizonte de sentido, propósito e transcendência; religião, por sua vez, oferece mediações comunitárias e rituais que sustentam e transmitem essa procura. A evidência científica acumulada sugere associações consistentes, embora não mecânicas, entre espiritualidade/religiosidade e indicadores de bem-estar e esperança, sobretudo quando entram em jogo o suporte social, a pertença e estilos de lidar com o estresse mais construtivos. Mas, no espaço familiar, o ponto decisivo não é a etiqueta “religioso” ou “não religioso”; é a qualidade da experiência: se a fé liberta ou oprime, se alarga o coração ou instala medo.
Na família, estes bens ganham carne em práticas simples e constantes. Rotinas e rituais, mesmo modestos, estabilizam a ecologia emocional da casa: uma refeição partilhada sem ecrãs, um instante de pausa antes de começar a noite, uma palavra de gratidão que desarma a pressa, um pedido de desculpa dito com verdade, um tempo semanal realmente comum que interrompa o ritmo de corrida. Definir fronteiras digitais é, neste ponto, um ato de soberania afetiva: não se trata de demonizar a tecnologia, mas de garantir que a disponibilidade permanente não substitui a presença. O descanso, aqui, não é apenas intervalo funcional para recuperar e voltar a produzir; é uma linguagem de dignidade, um modo de dizer que a vida não precisa de justificar-se pelo rendimento.
Esta proposta exige também honestidade. A religião pode ferir quando se converte em vigilância moral, quando alimenta perfeccionismo, ou quando usa a linguagem de Deus para silenciar sofrimento e evitar o trabalho psicológico necessário. Uma espiritualidade autêntica não nega a fragilidade; integra-a. Não substitui o cuidado clínico quando ele é preciso, mas pode complementá-lo com uma gramática de sentido que devolve horizonte às perdas, reduz a solidão e cria condições para recomeços.
No fim, a questão é exigente e concreta: que tipo de mundo se aprende dentro de casa? Se a família voltar a ser lugar de amor incondicional, a métrica perde poder. E quando o amor vence a contabilidade do desempenho, a saúde mental deixa de ser um projeto de autoprodução e volta a ser aquilo que sempre foi: a possibilidade serena de viver, juntos, com liberdade interior e esperança.