“É neste meio que eu me abalanço a esgaratujar novelas. Há treze anos que apeguei por esse Minho, em cata do bálsamo dos pinheirais e das fragrâncias das almas inocentes.” – Camilo Castelo Branco [1]
Se hoje houvesse algum narrador astuto e criativo como Camilo Castelo Branco, capaz de descrever os atrativos verdejantes ou bucólicos da cidade de Braga, certamente não teria muito mais a narrar nos dias de hoje, praticamente continuaria apenas a falar do Bom Jesus. Desde as breves incursões de Camilo a cavalo em pleno século XIX, pouco se acrescentou em área verde à cidade, tendo sido apenas construído o Parque da Ponte/São João, há cerca de 100 anos.
Passados precisamente 150 anos da publicação da sua obra, podemos agora analisar o que nos prometeram nos últimos 25 anos e que continuamos à espera que se concretize:
Dizia-se em 2001 num documento oficial da CM de Braga [2]: "encontram-se em elaboração alguns Planos de Pormenor que vão permitir o aparecimento de 3 novos parques urbanos. São os casos do: “Parque Norte” (cerca de 450000 m2); “Monte Picoto” (cerca de 211000 m2), e “Sete Fontes” (cerca de 168000 m2), estando prevista a localização de um outro parque na zona sul da cidade junto à antiga fábrica da Grundig"
1 - Parque Norte (ou novo Bom Jesus, novo pulmão da cidade) - 1997
Ainda antes da decisão da localização do Euro 2004, o executivo socialista prometia uma expansão urbana, tendo para oferecer à cidade um novo Bom Jesus. O Parque Norte, em Dume, local do atual Estádio Municipal de Braga, parecia ser o garante de uma certa harmonia urbana, enquanto se licenciavam 2 novos centros comerciais, o Nova Arcada e o Espaço Braga. Aquele "espaço tampão", prometiam, seria capaz de suster o ímpeto expansionista, garantindo o equilíbrio territorial da cidade, protegendo o rio e o seu habitat natural. Resultado? Do prometido pulmão nada, e apenas se salva a Quinta Pedagógica e uma nova ecovia.
2 - Parque Eco Monumental das Sete Fontes - 2001
A famigerada e polémica revisão do PDM de 2001 foi uma machada no que se pretendia que fosse o Parque das Sete Fontes. Todo o conjunto patrimonial e natural, a par dos enormes mananciais de água que abasteciam toda a cidade de Braga no tempo das visitas do Camilo, ficaram irremediavelmente hipotecados perante as decisões então tomadas. 12 anos de uma nova gestão Autárquica foram insuficientes para resolver de forma célere, e a bom termo, o que poderia ser um espaço de fruição para famílias e um refúgio para os dias cada vez mais quentes.
3 - Parque do Picoto – 2003
Pouco se pode dizer destes 30 hectares de parque prometido. Aliás, pouco ou mesmo nada. Insegurança, ineficácia e total inexistência de vontade política. Alguns arranjos, plantações de árvores e várias tentativas falhadas de concessão do espaço para o tornar atrativo, com oferta de serviços de apoio aos visitantes, criando as condições de segurança mínimas para quem procura um espaço fora do rebuliço das grandes vias e do ruído automóvel.
4 - Parque de S. Martinho - 2025
Aqui chegados, e perante todo o histórico de impreparação e imprevisibilidade na execução dos parques prometidos, o que podemos esperar para o Parque de S. Martinho, muito anunciado como a grande novidade no novo PDM? Quanto tempo esperaremos para ver o espaço a ser desfrutado pela população Bracarense? Quanto custarão os 50 hectares de terrenos em acordos amigáveis ou em expropriações? E que tipo de parque estamos a falar? Precisamos de facto de um novo Bom Jesus ou poderemos aspirar a ter um parque urbano moderno, com diversas valências, à imagem dos que conseguimos visitar nas grandes cidades europeias?
Como candidato à Junta da UF de Real, Dume e Semelhe pela Iniciativa Liberal, apresentarei a proposta imediata do lançamento de um concurso de ideias que abra a discussão e envolva toda a população e os habitantes da zona, escutando igualmente os especialistas em matéria de urbanismo e paisagismo, estimando os custos e obrigando os responsáveis a assumir um prazo razoável para a sua construção. Não podemos aceitar a espera de mais 25 anos, sob pena de nos tornarmos cúmplices das falsas promessas.
[1] Citação do livro, O Comendador, editado pela primeira vez em 1875
[2] https://www.cm-braga.pt/archive/doc/Relatorio_de_Avaliacao_e_Execucao_do_PDM_2001.pdf