É uma tendência crescente, em muitos setores da nossa sociedade, que quem entra em substituição como que faz ‘tábua rasa’ de quanto aconteceu antes dele, pretendendo dar início a algo ‘novo’, que pode ser tão interessante quão ridículo ou mesmo acintoso para com quem foi substituído…Vemos isso na vida política – governo geral, autarquias e até partidos – e mesmo no âmbito religioso, sobretudo por ocasião das mudanças – habituais ou ocasionais – de responsabilidade nas paróquias. Qual a razão desta tendência assim tentadora? Como se explica este fenómeno? Será de agora ou já se verificou no passado? Que revela isso sobre quem faz tal?
1. Particularmente depois das recentes eleições autárquicas foi-se ouvindo que muitos dos vencedores deixaram ostensivamente cair projetos aprovados – alguns de milhões e com financiamento europeu – acoplando remendos tanto ou mais caros do que o programado… só porque parecia se uma forma de mostrar ‘autoridade’ e de darem o seu toque singular. Casos houve em que isso fazia parte das tais ‘promessas eleitorais’, mas noutras situações notou-se ser pura birra de quem quer fazer esquecer os antecessores… Atendendo aos custos – diretos e indiretos – estes comportamentos não abonam muito em favor de quem os tomou e os colocou em prática. Esses ‘salvadores’ sem memória talvez possam não vir a passar de meras notas de rodapé de uma história que, normalmente, não paga a traidores.
2. Que dizer, então, dos casos de eclesiásticos que não têm em conta a quem substituem e como que tentam varrer para fora de circulação quem, tendo-os antecedido, os possa ofuscar nas suas pretensões de protagonismo? Efetivamente nada há de novo que já não tenha sido visto, mesmo que a história seja longa nunca ou dificilmente será esquecida.
Recordo a estória que um dia um responsável de uma diocese me contou.
Um dia um padre novo chegou a uma paróquia e deparou-se com uma grande pedra no meio da igreja. Diante daquela anormalidade, logo conjeturou tirar o pedregulho dali, pois estava a ocupar espaço e não tinha, segundo ele, qualquer sentido continuar aquilo assim. Como se costuma dizer: se bem o pensou, melhor o que quis fazer. Ora, um velho (no sentido da idade e da sabedoria da vida) aproximou-se dele e questionou: o senhor já se perguntou a si ou a alguém sobre a razão da pedra ainda estar ali?
De facto, por vezes, há coisas que antes de querer fazer diferente - podendo implicar mudanças - precisam de ser entendidas, talvez explicadas, para serem melhor compreendidas. As pressas, normalmente, resultam mal e podem trazer consequências nefastas. Ser paciente também revela maturidade humana e espiritual.
3. Vivendo nós num tempo bastante acelerado - por fora e por dentro - torna-se urgente construir uma cultura onde a ousadia seja bem conjugada com a prudência; o saber estar atualizado se harmonize com conhecer o terreno que se pisa; a capacidade de inovar possa conjugar-se com uma mentalidade que respeita os outros, sejam mais velhos ou mais novos, tanto na idade quanto na formação humana e intelectual; a correta conjugação entre a teoria e a prática, possam ser uma aprendizagem crescente para todos e cada um; a espera para mostrar resultados não pode suplantar o respeito pelas diferenças nem por quem pensa ou age de forma diversa da minha...
4. Recordo novamente uma expressão de oração que bem podia ser um mote para quem muda de lugar ou tem de assumir outras tarefas em circunstâncias diferentes daquelas em que se encontrava. É a dita oração da serenidade: «Deus, conceda-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, a coragem para mudar as coisas que posso e a sabedoria para discernir uma da outra». Com efeito, usando a linguagem bíblica: há um tempo para tudo (cf. Ecl 3,1-8) e saber discernir como cada um de deve adequar ao tempo, ao espaço, às pessoas e às circunstâncias é uma arte a aprender, a aprofundar e a viver cada dia.