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A rodar “sem freio”

 



 

 



 

Tenho presenciado uma certa irritação em algumas pessoas ao serem ultrapassadas pelas trotinetes em movimento pela nossa bimilenária Bracara Augusta. Veículos que vagueiam, por vezes, em velocidade furiosa, colocando em risco a integridade física dos pacatos cidadãos. Por tal motivo, resolvi adaptar uma bem conhecida cantiga dos Azeitonas, com algumas alegorias ao tema. Pelo que resta trautear a melodia e seguir a letra. Vamos a isso:

Anda comigo ver as trotinetes/ Em devaneios /A rasgar as ruas/Passar tangentes. § Anda comigo ver a correria/ Em que elas andam/Numa de fininho/junto aos peões. § Um dia eu ganho a lotaria/Ou faço uma magia/ E que eu morra aqui/ Braga tu sabes o quanto eu te amo/Quanto eu gosto de ti/ E que eu morra aqui/Se um dia houver um rebuliço/Juro que eu o apoio só por ti. 

Anda comigo ver as trotinetes/ à Avenida/A rasgar passeios/ Queimar pneus. § Um dia eu perco a pachorra/Agarro na viola/E que eu morra aqui/Braga tu sabes o quanto eu te amo/ Quanto eu gosto de ti/ E que eu morra aqui/Se eu não faça uma balada de protesto só p’ra ti. § Um dia eu vou a pé à bola/ De boné e cachecol/Nem que eu morra aqui/ Braga tu sabes o quanto eu te amo/ Quanto eu gosto de ti/ E que eu morra aqui/ Se um dia um não faça uma “manif” /P’ra correr com elas fora de ti. 

Tempos houve em que a febre eram os skates. Modalidade que, entretanto, abrandou. Era frequente vermos, no seu apogeu, jovens aficionados em desabridas correrias não só por entre o pessoal andante, como por cima dos muros, bancos dos jardins, etc. Uma praga de autênticos “rebenta canelas” que pouco respeitavam o espaço pedonal. 

Contudo, apesar das quatro rodas, são impulsionadas pelo pé no chão. Daí, não se tratar de um meio de transporte, mas de demonstração de piruetas na via pública. E, ainda hoje, se algum transeunte chamar à atenção de algum skater pelo facto de se ver molestado fisicamente, sujeita-se a ser vaiado de resmungão e brindado com mais alguns vitupérios.

A diferença é que os skates são barulhentos e, para além de terem os “skate-parques”, atingem pouca velocidade. O que dá para os transeuntes se aperceberem da sua chegada. Já as trotinetes, devido ao seu sistema elétrico, são mais rápidas, silenciosas e, por isso, traiçoeiras. É que já tenho presenciado bracarenses, e não só, quando calcorreiam a cidade a serem surpreendidos com o risco iminente de serem trucidados, não fosse o facto de caminharem sem desvios.

Pura sorte, senhores mandantes, tem havido na cidade dos Arcebispos. Digo-o porque, enquanto casal, a minha esposa com problemas do foro cardiológico e eu de coluna vertebral, também já temos apanhado alguns sustos. Que o diga o cidadão bracarense que me relatou ter vivido duas dessas situações na Rua dos Capelistas e no Campo da Vinha. Pergunto: se algum “trotineteiro” matar, ou magoar seriamente alguma pessoa, ao ponto de a incapacitar para a vida, quem responde por isso? A Câmara Municipal de Braga (CMB), ou a Empresa? Ou, como Pilatos, lavarão daí as mãos?

O deixa-andar, mais parece estar instalado. Já que é raro o dia, faça chuva ou faça sol, em que não veja trotinetes ao abandono não só na via pública, como nos sítios mais improváveis. Pergunto, por que razão não há uma atuação policial que responsabilize os seus utentes com coimas ou, até, inibição de conduzir tal praga? Pelo que me apercebo, o chorudo negócio desse, símbolo da “parolice nacional”, é para continuar. Se acham que é exagero, repare-se em Paris que já baniu, há algum tempo, tais “armas de arremesso”. 

Ora, será que a CMB – onde não faltará gente qualificada nestas coisas da mobilidade – não terá alguém capacitado para regulamentar esta espécie de “vespas asiáticas”? Sobretudo, que procure disciplinar os que delas se servem, no sentido de conter o seu rodar “sem freio”? É que se não forem tomadas medidas e criadas condições de segurança não só a quem vive na cidade, como a quem a visita, como lá diz o Repórter Beta: – “boa bai ela”. 

Narciso Mendes

Narciso Mendes

8 junho 2026