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Com João Paulo II na cruz

No passado dia 18 de Outubro, publicou um dos nossos principais jornais diários um interessante artigo sobre o Papa, da autoria do actual Prelado do Opus Dei, o Bispo D. Javier Echevarría.

N/D
28 Out 2003

Falar do Santo Padre não é tarefa fácil, ou aparentemente não parece sê-lo, se nos fixarmos apenas no que muitos meios de comunicação social dele nos relatam habitualmente. Este chefe da Igreja, que completou a 16 do corrente mês vinte e cinco anos de pontificado, nem sempre foi bem entendido e muito menos bem tratado pelos “media”, nomeadamente por aqueles que gostariam que o Papa fosse feito à medida dos seus desejos e dos seus pareceres sobre as diversas questões que defendem.
Alguns, inclusivamente, como que se sentem no direito de o aconselhar a perfilhar as suas ideias, a fim de poder estar com aquilo que pensam deve ser o juízo actualizado do homem de hoje. Por isso, quando João Paulo II, com a determinação e a coerência de sempre, explana a doutrina tradicional que a Igreja defende hoje e defendia há vinte séculos, eis que o taxam com os epítetos próprios de quem quer que a realidade seja o que as opiniões mais em voga e actuais – isto é, as suas, segundo afirmam -, dela nos manifesta agora, esquecendo-se porém de que ontem eram diferentes e, amanhã, provavelmente, serão uma ruína ideológica em muitos e muitos volumes jacentes nas bibliotecas mais famosas de todo o mundo.

Penso que, ninguém como o Romano Pontífice, terá consciência de que a missão iniciada em 16 de Outubro de 1978 e que o Espírito Santo inspirou aos cardeais da Igreja Católica no Conclave que o elegeu, se abeira inexoravel e naturalmente do seu termo. Trata-se dum homem simples, profundamente humilde, cheio de sentido comum e de visão cristã dos problemas. E esta implica a sabedoria prática e objectiva de que, aqui, nesta terra, como diz S. Paulo, não temos morada permanente.

O que não significa não dever estar no seu posto até que Deus o queira, mesmo quando Ele o obriga a abraçar corporalmente, como o Seu Mestre, a Cruz que Cristo aceitou com pleno garbo e voluntariedade amorosa, não sem que antes, movido pela relutância própria do ser humano perante a dor e o sofrimento, se tenha certificado de que ela era o meio que o Pai Lhe pedia para realizar a redenção de todos os homens.

Se compararmos João Paulo II dos anos setenta, oitenta e dos primeiros cinco anos dos noventa com a sua figura actual, podemos notar a diferença duma vida que se está a oferecer a Cristo sem medida, hora a hora, dia a dia, ano a ano. E nem é preciso recordar os tiros da Praça de S. Pedro, as múltiplas operações cirúrgicas a que foi submetido e as doenças graves que sofreu. As imagens falam por si, como falariam se estivéssemos no Calvário a presenciar o “rosto de Cristo”, um sofredor calmo e sereno, que Se deu aos outros até à completa exaustão.

Só que não é agradável presenciar a dor e o sofrimento. Incomodam-nos, perturbam-nos e interpelam-nos. Muitas vezes perguntamos o seu sentido e é com dificuldade que o entendemos, talvez por que gostássemos de obter explicações imediatas e taxativas, que não surgem à mercê dos nossos desejos ou da nossa impaciente curiosidade. E esquecemos também, na perplexidade em que nos sentimos, de que o cristão deve fazer seu o viver de Cristo. Mais uma vez S. Paulo nos ensina: “Já não sou eu quem vive; é Cristo quem vive em mim”.

Mas sejamos coerentes: se admiramos João Paulo II como o líder que mais cativa os jovens e arrasta multidões nos nossos dias, como o redactor de tantos e tantos textos sábios e lúcidos, como o promotor dos passos mais ousados que se deram até hoje no difícil caminho do ecumenismo, ou como o grande defensor da paz e do perdão compreensivo entre os homens, não deixemos de ter em conta que tudo isto resultou duma entrada completa na sua vida de Cristo, a Quem tomou plenamente a sério. E Cristo é Tabor e Calvário, triunfo e morte na Cruz, com toda a sua carga de padecimento e de renúncia a Si mesmo. Só assim é que teremos Cristo muito perto de nós e O compreenderemos.

Como escreve D. Javier Echevarría: “João Paulo II mostra-se-nos próximo, porque nos recorda que Cristo está muito próximo de nós, vive connosco e dá sentido à nossa vida. Uma certeza tão firme que não necessita de mais provas do que a cruz: essa cruz em que todos contemplamos também o próprio Papa”.




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