Faz sentido em plena pandemia discutirmos o futuro das nossas cidades ou, aliás, desenhar novos modelos de intervenção e planeamento tendo como pano de fundo a transformação silenciosa que se está a verificar entre nós? Diria que começa a ser claro que todos, uns mais do que outros, já estão a passar por um processo de transformação quer no modo de pensar, quer no modo de agir e intervir em sociedade.
Na passada quinta-feira, num debate online, promovido em Braga pelo novo partido Volt, em que participei, discutia-se precisamente o futuro próximo das nossas cidades e dois aspetos pareceram sobressaíram como consensuais: a noção de risco e segurança será mais acentuada e as questões de saúde e ambiente vão andar de mãos dadas.
Relativamente ao primeiro, a consciência de que nada será igual ganha raízes e começa a ser consensual na sociedade que a noção de risco coletivo e a noção de segurança individual vão influenciar as nossas vidas no futuro próximo, tornando-se parte do quotidiano, por muito que possa ser desagradável, vermos surgir a palavra desconfiança no nosso léxico. Esta leitura é como uma faca de dois gumes: desde logo porque essa não é a faceta desejável e seria o mote para uma desagradável acentuação do egoísmo e da indiferença. Contudo, os sinais de que possa ser este o desfecho, já se vinha a desenhar na sociedade portuguesa e poderão de facto infletir a noção de equilíbrio nas relações sociais. Por outro, o pragmatismo ditará uma nova Ordem Social, cheia de novas regras e de modelos de segurança que tornarão as nossas vidas previsíveis.
A par desta ideia de nova Ordem Social, desenhada pela engenharia preditiva, as questões relacionadas à Qualidade de Vida, assumirão um lugar de destaque na exigência comum dos cidadãos, mais despertos e mais críticos quanto às suas necessidades reais, exigindo uma alteração profunda ao modelo de governação em vigor. Ninguém ousará pôr em causa que os recursos na área da Saúde, terão de chegar rapidamente, seja qual fora a via, a todos os cidadãos e que o respeito pelas regras de um Ambiente seguro e duradouro, serão determinantes para esta nova noção de Qualidade de Vida.
Essencial, nesta dupla dimensão, a Mobilidade, nas suas múltiplas dimensões, ganhará o estatuto de Direito Social, ou seja, quer no capítulo pedonal, quer na deslocação para o trabalho ou para o lazer, as soluções terão de garantir que o preço a pagar terá de ser parte integrante da fatura das políticas urbanas, a par do acesso gratuito e universal às redes de comunicação que, combinadas, com aqueles dois aspetos, conferem às pessoas, direitos combinados inalienáveis.
É verdade, que quer nos transportes, quer na assunção da consciência ambiental, os cidadãos são hoje mais críticos e mais audazes nas suas exigências, mas sê-lo-ão ainda mais à medida que se acentuam as desigualdades e cresce o fosso entre os que, de alguma maneira, são privilegiados, e os que desesperam por uma oportunidade. Espera-se, por isso, um novo discurso político no longo debate que teremos pela frente a propósito das próximas eleições autárquicas. Veremos quem ousa pensar diferente e quem será capaz de traduzir na prática, as respostas que, em comum, poderão ser abraçadas de forma consensual por todos e que individualmente, determinarão, uma nova Ordem Social.
Desenganem-se os que acham que tudo voltará a ser como dantes e que do Alto do Pina, poderão anunciar promessas de megafone em punho, como se o tempo voltasse para trás. Os que não perceberem esta nova vontade social, deixarão a grelha de partida e tornar-se-ão obsoletos. Para aqueles que acreditam que a governação urbana terá de dar um salto qualitativo, fica claro que ou se preparam e reinventam o discurso e prática política, respeitando as exigências da nova Ordem Social, ou sofrerão o mesmo destino dos excluídos. O Tempo para redefinir esta nova conjugação de interesses é escasso. Creio que, apesar dos avisos, teremos em confronto quem ousa de forma clássica, atropelar ou escamotear a determinação das pessoas e os que, entre os que se querem candidatar à governação local, aparecem determinados a serem condutores da Mudança. Eu já sei quem vou escolher.
Autor: Paulo Sousa