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Cuidados Paliativos: Cuidar quando curar já não é possível

Quando se ouve falar em "cuidados paliativos", o receio instintivo é ainda uma reação comum, dado que ainda se associa a esta área, erradamente, ao fim da Esperança ou ao abandono de tratamentos. 

A origem da palavra explica esta missão: "paliativo" deriva do latim “pallium”, que significa "manto" ou "capa". Tal como o manto que abrigava os viajantes das intempéries, os cuidados paliativos (CP) oferecem proteção e amparo ao doente e à sua família na evolução de uma doença grave e irreversível, de forma a proporcionar o alívio do sofrimento. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS), define os (CP) com uma abordagem multidisciplinar que visa prevenir e aliviar o sofrimento através da identificação precoce, avaliação e tratamento rigoroso da dor, bem como de outros problemas de dimensão física, psicológica, social e espiritual. No âmbito do Dia Mundial dos Cuidados Paliativos de 2026, destaca-se uma mensagem urgente e clarificadora: "Controlo da dor – uma parte essencial dos cuidados paliativos". 

Idealmente, os CP não deverão restringir-se aos últimos dias de vida. A investigação recomenda a intervenção precoce nas situações de doenças com prognóstico reservado como a doença oncológica, as insuficiências de órgão avançadas, (ex: insuficiência cardíaca, renal ou respiratória), as doenças neurológicas progressivas, (ex: Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e as demências. A prestação destes cuidados não pressupõe a interrupção das terapêuticas dirigidas à doença de base, podendo ser desenvolvida em simultâneo. 

A intervenção paliativa baseia-se no conceito de "dor total", reconhecendo que a dor física é frequentemente acompanhada por dimensões psicológicas, sociais e existenciais. Nenhum profissional consegue responder sozinho à complexidade da “dor total”. Por isso, os cuidados paliativos são prestados por uma equipa multidisciplinar constituída por médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, nutricionistas e assistentes espirituais. Esta abordagem foca-se no controlo sintomático — como a dor, a dispneia e o cansaço —, no apoio emocional e social aos cuidadores, e no acompanhamento durante o processo de luto. 

Na Unidade Local de Saúde (ULS) de Braga, a resposta a estas necessidades encontra-se centralizada no Serviço de Cuidados Paliativos (SICP) que, desde janeiro de 2026, integra três estruturas especializadas e articuladas: Equipa Intra-Hospitalar de Suporte em Cuidados Paliativos (EIHSCP), que presta assistência no contexto do internamento hospitalar e ambulatório, a Equipa Comunitária de Suporte em Cuidados Paliativos (ECSCP) que assegura o acompanhamento e a gestão de sintomas no domicílio do doente e a Equipa de Cuidados Paliativos Pediátricos: presta apoio especializado a crianças e jovens com doenças graves ou limitantes de vida e às suas famílias. 

Na ligação entre o hospital e a comunidade através destas equipas, tenta-se o acompanhamento contínuo e humano, ao doente quer no hospital, quer no domicílio, junto das famílias. 

Esta organização em rede no SICP, ainda com carências relativamente à capacidade de resposta atempada, permite garantir a continuidade da prestação de cuidados e a equidade no acesso ao controlo da dor e alívio do sofrimento, em diferentes contextos e idades. 

Cuidar quando curar já não é possível significa defender que a vida mantém o seu valor em cada instante. A esperança não se apaga: redireciona-se para o viver com dignidade, em paz e sem dor, junto das famílias. 

Teresa Macedo

Teresa Macedo

23 outubro 2026