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Perdoar ou esquecer?

O travesseiro mais perfumado e mais fofo, ainda continua a ser o da consciência tranquila e o melhor cobertor e mais quentinho é a certeza de que somos e de que fazemos o nosso melhor.


 

Na verdade, há os que dizem que nunca fizeram mal ou asneiras e os que dizem que nunca prejudicaram ninguém. Ou são mentirosos ou pobres de espírito. É preciso avisar esta gente que o povo vai respeitando os segundos declarantes e afirmar-lhes que ironizam os primeiros.


 


 

Este século XXI, tem sido terrível contra os povos, a Humanidade. O mal que certos líderes da política praticam, tem sido devastador. A dor vê-se, o medo é companheiro das pessoas, o ódio corre na velocidade que a água caminha para o mar. O bem é pouco exercido e o mal tem sido abundante.


 

Eis porque, em conversas de família, na rua ou onde quer que se esteja, é frequente as pessoas afirmarem que “o Bem e o Mal que me fazem, nunca esqueço”. Existem também aqueles que afirmam e convictos estão de que “conforme semeares assim hás-de colher”. E é sabido que o povo tem as suas “máximas”, utiliza-as, confia nelas e a vida vai rolando.


 

Sabe-se também – e esta frase é frequente – que o povo ferido por qualquer palavra ou atitude d’outrem acaba por afirmar: “perdoo, mas não esqueço”. Tal “sentir” existe, e é constante o desabafo. E no fundo, no fundo, é bem difícil esquecer maldades ou prejuízos graves que se fazem.


 

Cada pessoa é como é. Tem a cultura e a educação que foi possível e os usos e costumes têm grande influência na maneira de ser e de estar das comunidades: nos bairros, nas freguesias, nas cidades, no país.

É evidente que ao afirmar-se “perdoo, mas não esqueço”, não se estará muito longe do “bom”, mas, o óptimo e cristão seria perdoar e esquecer, que quase impossível se torna, convenhamos.


 

Há ainda outro desabafo, outro sentir em relação ao mal que se faz: aqueles que afirmam “não perdoo, mas esqueço”. Entre estes diferentes modos de reagir, qual deles estará mais perto do “bom”, mas longe do óptimo ou do “cristão”? Serão coisas simples, ou não?

 

Reconhecendo-se o incompleto perdão, no perdoar sem esquecer e na confusão em não perdoo, mas esqueço, o que importante se torna é que se faça “força interior” para que quem tenha de “só” perdoar ou “só” esquecer, avance no caminho do “verdadeiramente cristão”.

 

Sabe-se que a rigidez, a incompreensão e a intolerância, são o cancro da alma, sentimentos nada dignos de cristãos. E quem é cristão, reza, e rezando é obrigado a amar e, quem ama, avança impreterivelmente para o perdoar e o esquecer.


 

Quem é forte de carácter e de cultura mínima, consegue compreender os erros contra si e nenhuma dificuldade tem em mostrar a força do perdão. Enquanto outros, mais débeis em conviver com as atitudes negativas, porque nada perdoam, facilmente mostram revolta e tudo derrubam. Estes, ao serem e sentirem assim, nem se apercebem que o prevaricador só morre dentro deles quando morrerem, que dorme neles tirando-lhes o sono e come com eles à mesa roubando-lhes o apetite. 

E os mais experientes e irónicos no acto de perdoar, afirmam: “a pior vingança que fazemos aos nossos inimigos é perdoá-los, pois perdoando-os livramo-nos deles”.


 


 

Tive um Mestre que era permanentemente massacrado por pessoas que lhe diziam mal, muito mal dos outros, principalmente se eram conhecidos de ambos. O Mestre ouvia, sorria, ficava com cara de surpreendido do que ouvia e raramente reagia. O queixoso perguntava-lhe: “então o senhor não diz nada sobre do que me queixo”? O Mestre, provocando o fim dos queixumes, dizia: “olha, se não podes dizer bem dele, pelo menos não digas mal dele”. Procura ser anjo, mas, evidentemente, não sejas anjola”.


 

S. Pedro perguntou um dia a Cristo se deveríamos perdoar até sete vezes. E Cristo respondeu-lhe: “não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Isto é, perdoar sempre. E S. Paulo, aconselha: “agora, porém, é melhor que lhe perdoeis e o consoleis para que não sucumba ao peso de demasiada tristeza”. 


 

Rezar, amar e perdoar, não são merecimentos fáceis de aprender, cultivar e dar. Todavia, o esforço do perdão tem de se adquirir, pois é sabido que “o que semeares irás colher” e se são semeados calhaus, colher-se-á areia.


 


 

(O autor não segue o acordo ortográfico de 1990)

Artur Soares

Artur Soares

23 outubro 2026