Podemos não ser um povo esforçado, trabalhador e honesto quanto baste, mas sobra-nos imaginação e argúcia para muitas atividades menos recomendadas e abonatórias; e, assim, lá vai aparecendo gente graúda ligada a esquemas de corrupção, branqueamento de capitais, fugas ao fisco, burlas, falências e insolvências.
Depois, talvez como contrapartida desta falta de caráter e ética, afirma-se a faceta lusitana do gozo e do risonho no vasto anedotária nacional a propósito de tudo e de nada; como, igualmente, na batida de recordes em que somos uns autênticos glutões.
Se bem me lembro, somos atualmente os recordistas: da maior feijoada da ponte Vasco da Gama, do maior pão com chouriço, do maior prato de arroz de marisco, da maior distância percorrida por um barman com uma bandeja na mão, do maior desfile de carros dos bombeiros, da maior francesinha, do maior jesuíta, do maior cachorro quente, do maior número de pessoas a dançar o vira minhoto, da maior emissão continua de rádio, da maior caravana rolante de jipes, do maior número de matraquilhos humanos a jogar numa praia, do maior número de acidentes por quilómetro de estrada, do maior número de incêndios por hectare de floresta, do maior número de bombeiros a combater um incêndio em simultâneo, do maior número de fugas ao fisco, do maior número de foguetes lançados em agosto...
Mas se bem repararmos são recordes que em pouco ou nada beneficiam o progresso, a economia e, até, o orgulho e bom nome nacionais; e, quando muito, elevam a autoestima de quem os pratica e convidam a umas sessões comemorativas de comes e bebes num verdadeiro desafio ao apetite nacional.
Pois bem, na senda destas singularidades lusas, por decisão do Ministério das Finanças, acaba de ser decretada a obrigatoriedade de entrega pela internet da declaração do IRS (Imposto sobre os Rendimentos de pessoas Singulares), pondo, assim, fim ao uso de papel; e isto só prova que, uma vez mais, mostramos ser um país práfentex que prima por estar sempre na onda do recordismo, mesmo que seja da asneira.
É que esta medida não passa, a meu ver, de uma mera e bacoca exibição tecnológica, mormente num país ainda amplamente analfabeto no assunto; mas o que daqui se respinga é uma preocupação de mostrar ao planeta que, mesmo de forma grosseira e incipiente, somos dos primeiros, não tivéssemos os melhores futebolista e treinador de futebol do mundo; como diria o outro, franzinos e esfomeados, mas sempre de peito feito.
Diz a Autoridade Tributária que apoiará os contribuintes que necessitem nessa entrega via internet; e, como tal, servindo-se dos serviços locais de Finanças, apoiando-se nas juntas de Freguesia e nas lojas do Cidadão, obviamente onde as houver, digo eu. Porém, aqui se levanta um problema sério: os cidadãos que tenham de recorrer a este apoio, e não serão poucos, têm de revelar a sua senha secreta de acesso ao Portal das Finanças; e isto permite a devassa da sua vida privada por pessoas estranhas o que atenta contra o seu direito fundamental à privacidade.
Depois, num país como o nosso de má-língua e bisbilhotice, as consequências sociais resultantes de atos desta natureza, podem arrastar consequências imprevisíveis e absolutamente nefastas; basta lembrarmo-nos do que já vai acontecendo com fugas constantes de informações de serviços públicos, mesmo que obrigados ao sigilo, sobre a vida privada dos cidadãos; e, então, já se pode imaginar as fofocas daí resultantes: fulano é dono de isto e daquilo e, até, possui casa de praia, como beltrano não tem rendimentos para esbanjar como esbanja ou sicrano que só em restaurantes e cabeleireiro é um ver se te avias, etc.etc.etc.
Pois é, como quase sempre, obramos muito e depressa, em vez de o fazer devagar e em quantidades adequadas; e, depois, o resultado desta leviandade ou mania de exibição inevitavelmente resulta, quase sempre, em tremendas asneiradas.
O que nos leva a praguejar:
- Põe-te a pau, ó Zé, que te querem fazer doutor de internet à viva força!
Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
Recordismo nacional
DM
21 fevereiro 2018