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Qualidade afectiva no Lar e transmissão da fé

1. Os caminhos do afecto entrecruzam-se naturalmente com os caminhos da fé, porque ambos passam pelo coração humano. Era certamente disso que falava o sábio Paulo VI na ONU, quando apelava: “Homens, sede homens”. Ter fé implica acreditar e só quem ama é capaz de acreditar (aliás, a primeira escola para aprender a amar é sentir-se amado desde o início). E só quem ama e acredita é capaz de confiar. Confiar pressupõe proximidade do coração. Quando se diz que entre as gerações mais velhas e as mais novas há algum distanciamento, isso pode não ser necessariamente negativo, pois faz parte do processo e da dialéctica do crescimento: ao criar distanciamento de atitudes e de ideias feitas, isso vai possibilitar ao adolescente a construção de novas antíteses e de novas sínteses e assim facilitar a inovação. Tal não significa necessariamente conflito, pois o afecto que une as duas gerações é sempre capaz de as aproximar mesmo nas diferenças. Assim, quando há distanciamento entre a geração mais velha e a mais nova, é preciso ver que distanciamento é esse que impede a comunicação de valores, porque pode haver outras razões para além da normal dialéctica de crescimento. Uma das razões de frequente distanciamento entre gerações continua a ser a mudança de paradigma cultural na transição do modelo da vida do meio rural para o modelo citadino (ou suburbano); outra razão também influente é a colonização cultural das tradições do meio rural pelos meios audiovisuais da cidade, ajudando a acentuar a distância entre mais os mais novos, que as aceitam como primeira escolha e dão mais valor ao que vem da cidade e os mais velhos, que muitas vezes as sentem em conflito entre o que antes aprenderam e os novos modelos de viver (como não se pode evitar, é preciso ajudar a superá-la positivamente);e outra que ainda se mantém é a que resulta da alteração e exercício do conceito e do modo de autoridade no Lar, que antes modelava e aproximava a família. 2. Na secular cultura rural, que era mais próxima e mais personalizada e que, por isso, ficou mais arraigada na mentalidade das pessoas, o Lar era a escola de referência de valores na família. Hoje, já não é tanto assim, porque a cultura do Lar se relativizou e perdeu influência como padrão social e também por causa da diversidade de modelos familiares na sociedade de hoje (que continua, qual adolescente, à procura do sentido humanamente estruturante da Família). Ora, à medida que o campo de influência familiar de valores vai perdendo significado para os filhos, a sua educação faz-se menos com recurso ao poder da autoridade parental e mais com recurso ao poder afectivo da motivação e da convicção. O acento vai passando do poder para o afecto, mesmo que a autoridade não deixe de existir: a inclusão afectiva passa a ser o critério mais forte de pertença à família e às suas tradições. Esta mudança começa a ser significativa a partir do início da adolescência. Quer isto dizer que, para poder continuar a ter influência de modelagem sobre os valores dos mais novos, o Lar precisa de funcionar como escola de afecto e de sabedoria de humanidade: ser capaz de transmitir aos filhos uma leitura culturalmente esclarecida dos acontecimentos sociais baseada nos seus valores, embora com respeito pela liberdade de opinião, porque, a diversidade de opiniões pode conviver normalmente no mesmo espaço através do elemento agregador que é o afecto e a tolerância. Porém, esta mudança de atitude de poder parental não é fácil. O recurso à força é sempre mais tentador e mais fácil, embora não produza os efeitos desejados e, às vezes, produza mesmo o efeito inverso. 3. Hoje, o trabalho de apoio à família pode ser para a Igreja o novo campo estratégico de futuro em termos de qualidade de humanidade e de base para a génese da fé. Mas, para isso, a tem de mostrar, diante da concorrência, que é sábia em humanidade. Porque, neste campo, nada se impõe, mas apenas se escolhe. Neste tempo, em que se valoriza cada vez mais o contributo das Ciências do Homem para a qualidade humana, a questão está em saber como fazer. Porque não basta o saber teórico, é preciso também a atitude que envolve esse saber, o tal testemunho de humanidade e de fé. Também no ensino não basta que o professor tenha competência técnica, embora ela seja de todo indispensável; é preciso que ela esteja associada à qualidade de simpatia, que se traduz na relação pedagógica e motiva a aprendizagem dos alunos. Há ainda um outro factor relevante neste tempo de mudança: saber agir no momento certo. Quando se diz que os jovens exigem que a Igreja seja transparente, capaz de se rever a si própria e se actualizar é porque ainda esperam dela alguma coisa e significa que este é o tempo útil de renovação (não deve confundir a normal atitude de contestação dos jovens com a contestação dos adultos, porque esta já está estratificada); caso contrário, afastam-se. Normalmente, a necessidade de mudança das instituições começa com o tempo de contestação: aqui, ainda há expectativa e paixão pela renovação. A seguir, se nada mudou, vem o tempo do deixa andar, que se traduz na desistência e afastamento. Aqui, já se torna difícil renovar. As coisas vão caindo e morrendo por si…até que outros modelos sejam assumidos e implantados. Mas, entretanto, pode acontecer um tempo de rutura e de vazio com custos sociais elevados para as comunidades… Porque não se deu atenção ao momento útil de renovação.
Autor: M. Ribeiro Fernandes
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8 abril 2018