Um dos exercícios deste tempo é a Via-Sacra. Nas sextas-feiras da quaresma é costume, na maior parte das igrejas, realizar-se esta devoção que nos recorda a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.
É uma prática profundamente rica no aspeto espiritual pois nos une ao mistério central da nossa fé: o mistério pascal de Cristo.
Nas diversas estações vamos meditando os sulcos roxeados do Corpo do Salvador e a Sua morte no calvário. São catorze estações normalmente. Alguns programas acrescentam a da Ressurreição, perfazendo quinze.
No percurso das meditações aparece a figura de Simão Cireneu, pai de Alexandre e Rufo, que vinha do campo e foi obrigado pelos guardas a transportar às costas o pesado madeiro, pois o condenado ia cedendo ao peso.
Em recompensa, segundo a tradição, recebeu a graça da conversão dos filhos à fé cristã, os quais se tornaram discípulos dos apóstolos.
Este homem, Cireneu, é símbolo dos muitos cireneus de todos os tempos, e do nosso também, que transportam ou arrastam uma cruz pesada. A cruz da vida, dos trabalhos continuados e exigentes, do marido ríspido, dos filhos desobedientes, dos vizinhos quezilentos, da falta de bens pecuniários, diminutos ou mal gastos.
São cireneus os que trabalham com idosos nos lares ou em casas particulares. Estão sujeitos a mil trabalhos, a começar por temperamentos desabridos e mal-educados, cuidados repetidos de higiene, lavagens, limpezas, alimentação, etc.
Cireneus ou cireneias são também mães que acompanham um filho ou familiar com cancro e se revestem de enfermeiras.
Há outro simbolismo do Cireneu. A cruz que Cristo transportou e onde foi crucificado e morto não era d'Ele. Era nossa.
Da humanidade inteira, desde Adão e Eva até ao último homem/mulher do fim dos tempos. Simão de Cirene representou-nos a todos. Em nome da humanidade carregou a sua e nossa parte. Como São Paulo podia afirmar: “Completo na minha carne o que falta à Paixão do Senhor”.
No dia em que redijo estas linhas, encontrei-me fortuitamente com uma mãe que me referiu a via dolorosa que tem seguido com o amparo a um filho doente canceroso, sujeito a tratamentos. Falámos depois de outros problemas familiares, nomeadamente de ter feito de mãe de três netos devido à morte da mãe deles. São agora estudantes já adiantados.
Na breve conversação disse-lhe que não podemos desanimar, mas ter confiança. Deus é nosso Pai, conhece-nos bem e um dia nos receberá na Sua casa.
Concordou. Pôs o dedo na ponta do nariz e disse: não é para baixo, é para cima.
É para cima: para Deus e para a vitória, na vida e na eternidade. São Paulo afirmava: “Já não sou eu que vivo. É Cristo que vive em mim”.
Sejamos cireneus naquilo em que pudermos. Somos todos irmãos e da mesma família humana.
Autor: Manuel Fonseca
Os cireneus do nosso tempo
DM
22 fevereiro 2018