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No reino da podridão

Anda toda a gente pasmada. Todos os dias somos surpreendidos por individualidades da alta serem presos ou constituídos arguidos. Foi um primeiro-ministro, são secretários de Estado, são dirigentes desportivos, são funcionários públicos, e agora até dois juízes desembargadores estão nesta listagem malcheirosa; há assim um sem-número de casos cada um dos quais mais gravoso que o antecedente. Quando há uns anos me diziam que Portugal estava na lista dos países corruptos, eu barafustava e argumentava: não vejo quem, nem como, nem onde.

Afinal a podridão não estava ao nível do funcionário público, do empregado, dos que trabalham por conta de outrem; estava nas cúpulas, estava por cima da gente honrada, a mesma que ganha contado e gasta contadinho para honrar os seus compromissos de cidadão.

Os outros, a nata que está por cima, a que tem férias em estâncias luxuosas, que possui regalias de riqueza em todos os pormenores, eram os mesmos que dominavam, os mesmos que mandavam, os mesmos que traficavam influências, lavavam dinheiro, pagavam favores com lugares de favores, gastavam em despesas próprias com cartão de crédito e débito por conta do Estado, isto é, por nossa conta, à conta dos impostos para isto e mais aquilo, para que tivéssemos contribuições extraordinárias, impostos enormes sobre o trabalho, combustíveis… e nós, não sabendo nada disto, honrados como somos, julgávamo-los à nossa imagem, achávamos que eles, os senhores que agora estão a contas com a justiça, eram sérios, impolutos e incapazes de roubar desta maneira.

Doce encanto tem a inocência, mas quando a mesma se perde duro, maior é a desilusão e maior é o castigo que se exige lhes seja aplicado. O efeito deve ser proporcional à causa. Estes senhores dão um exemplo execrando, podendo desencadear outros casos semelhantes como se fosse um espelho que reflete uma imagem igual ao objeto.

O povo tem de manter-se honrado, mas é inevitável que olhe para este descalabro com nojo; mas existe o receio de que haja quem encontre para si mesmo uma qualquer justificação para prevaricar também. Se se generalizasse esta corrupção, seria a desmoralização completa e o ruir de uma sociedade que hoje temos. Colocar-nos-íamos a nível de países onde a corrupção é tanta que já se tornou uma trivialidade.

Espero que saibamos todos resistir a este descrédito que, porque vindo de cima, possa corroer o nosso comportamento alicerçado em princípios de honra que sempre nos nortearam. Receio que sim mas espero bem que não. O que podemos concluir de bom em todo este monturo é que temos a certeza de que a justiça está novamente de olhos vendados, não distinguindo os de colarinho branco dos que usam fato macaco de trabalho.

Desejo que nunca lhe tirem a venda ou façam dela uma simbologia sem significado, nem façam da balança um instrumento com dois pesos e duas medidas.


Autor: Paulo Fafe
DM

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5 fevereiro 2018