Uma jovem rapariga, já desposada segundo os costumes de então com um jovem da sua nacionalidade, chamado José, está em casa de seus pais, como é seu hábito, encarregando-se do trabalho quotidiano que lhe competia. Não é célebre, nem filha de pessoas importantes, ainda que, segundo se supõe, tivesse como parente longínquo mais célebre, o grande rei dos judeus, David, que vivera e reinara há mais ou menos mil anos.
Inesperadamente, sente que alguém a procura de forma inusitada. É um anjo, um emissário divino, saudando-a e manifestando-lhe um desejo de Iavé, que a deixa perplexa. Maria, assim se chama essa jovem israelita, não põe em dúvida a aceitação daquilo que o anjo lhe pede em nome de Deus: ser a mãe do Messias prometido. Contudo, não sabe como fazê-lo, e quer acertar no procedimento mais apto e eficaz para fazer com rigor e exactidão a vontade de Deus. Põe-se à disposição, ponderando, como sempre, o caminho adequado para cumprir as petições divinas.
A sua situação requer muitos cuidados, por que sendo desposada e não vivendo ainda com o seu marido, como era costume entre os judeus nesses tempos, percebe que Deus lhe pede para que no seu seio comece a germinar o Redentor do mundo. O que deve fazer, pois, como ela diz ao anjo, “não conheço varão”?
Maria é virgem e o processo mais consentâneo, provavelmente, para cumprir o que Deus lhe solicita era que se abeirasse do seu marido, antes mesmo de viverem juntos de modo permanente. Na Galileia (Maria e José viviam nessa zona de Israel), tal procedimento era mais raro do que entre os jovens casais da Judeia. Seria isso o que o Senhor queria? A jovem está disposta a tudo, sabendo que Iavé não faz pedidos iníquos nem acima das possibilidades de cada pessoa.
O anjo explica-lhe então que a via a seguir é diferente… A concepção do seu filho far-se-á por intervenção do Espírito Santo, Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Como Deus que é, pode superar as leis naturais que criou. Assim, o filho que germinará no seu seio será fruto do querer divino e realizar-se-á de forma miraculosa.
Maria, a “cheia de graça”, como lhe chamara o emissário divino, assente imediatamente, proferindo palavras de humildade: “Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a sua palavra”. Não hesita um momento, porque sabe que Iavé sempre pede o melhor e o mais conveniente. Por esta razão, diria exactamente as mesmas palavras se Deus lhe tivesse proposto outras alternativas.
Maria não confunde o “melhor e o mais conveniente” com situações fáceis e em nada problemáticas. Pelo contrário, a sua condição de mulher desposada levanta questões muito complexas a si e ao seu marido, José. Mas confia que a vontade de Deus é sempre o caminho mais adequado para a resolução dos problemas, por mais onerosos que se apresentem.
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Vemos, assim, no Presépio de Belém, Maria e José felicíssimos, depois de terem vivido algumas etapas da sua relação, em tempos recentes, com sobressaltos difíceis de encarar. A sua alegria reside toda em poderem contemplar, na manjedoira, Jesus Cristo, Deus encarnado. Ele é o Salvador do mundo, o que vai reconquistar para o homem a possibilidade de alcançar o Reino dos Céus. Custou-lhes alguns sacrifícios mais penosos? Houve momentos duros de viver? O Menino enche os olhos de Maria e de José com um contentamento único, que lhes faz esquecer completamente qualquer dor já passada. A recompensa divina, que é fruto de um Amor misericordioso e incomensurável, supera todas as agruras e obstáculos.
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
No Presépio de Belém (II) – Maria Santíssima
DM
23 dezembro 2017