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“Caminho, verdade e vida”

 


 

O texto do evangelho do próximo Domingo (Jo 14, 1-12), o V da Páscoa/Ano A, é um belo e denso excerto dos discursos de despedida (Jo 13, 31 - 17, 26), uma espécie de testamento espiritual de Jesus. À sua afirmação “para onde eu vou, vós sabeis o caminho” (14, 4), Tomé objeta: “Senhor, não sabemos para onde vais: como podemos conhecer o caminho?” (v. 5). Jesus aproveita a circunstância para fazer uma das suas mais fortes afirmações, no Evangelho de João: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim” (v. 6). Esta é ainda uma das expressões mais metafóricas e, por isso mesmo, mais densas e fortes de toda a Escritura, que resume, de forma profunda, a espessura da identidade, a essência da mensagem e o alcance da missão de Jesus. 

Começamos por notar que, ao contrário das palavras “verdade” e “vida”, que são frequentes no Evangelho de João (25 e 36 vezes, respetivamente), a palavra “caminho” só ocorre uma vez e é precisamente neste lugar1. Poderemos lê-la, por certo, no contexto do mal-entendido joanino2: Tomé compreende-a em sentido literal, como o lugar que se calca e por onde se passa. Porém, quando se afirma como tal, Jesu está a dar-lhe um sentido mais profundo. Porque se intitula de caminho para o Pai, sublinha a sua condição de mediador e apresenta-se como sentido e orientação para o ser humano que busca Deus e a quem Deus se revela. Por isso, Jesus não apenas aponta um percurso, mas ele próprio o encarna, convidando cada pessoa a viver segundo o amor, a humildade e a compaixão que o caraterizam. É, por isso, “um caminho pessoal, uma maneira de viver, com entranhas e coração”3.

Como habitualmente acontece em toda a Escritura, o caminho aponta para um modo de viver, uma direção existencial e até uma relação com Deus. Ao usar essa imagem, Jesus está a propor-se como o acesso direto para Deus (em alternativa ao judaísmo, em que esses meios eram a Lei e o Templo) e a sugerir um modo concreto de viver (um estilo de vida baseado no amor ao próximo, no perdão, na humildade e na justiça); está a afirmar-se como uma orientação no meio da incerteza (para chegar ao Pai, não é necessário saber tudo nem possuir competências extraordinárias, mas sim seguir Jesus). 

Num contexto religioso e filosófico em que havia várias propostas de caminho para a verdade e salvação (são exemplo disso as numerosas religiões do Próximo Oriente e as diversas filosofias gregas, como o estoicismo e o epicurismo), afirmar-se como “caminho” era apresentar uma alternativa mais concreta, pessoal e relacional às outras “vias”. De facto, afirmando-se como o único mediador, Jesus sugere que o caminho é uma pessoa, o que faz com que o centro e o foco não sejam um sistema ou um simples ideário, mas uma relação viva. 

Ao propor-se como verdade, Jesus vai além de uma noção abstrata ou intelectual deste conceito, própria da filosofia. Nos evangelhos, como também no Antigo Testamento, a verdade não é um conjunto de ideias corretas, mas uma realidade viva que se manifesta na autenticidade, na fidelidade e na revelação de Deus como amor. Jesus propõe uma verdade que liberta, que ilumina a consciência e que convida à coerência entre o que se acredita e o que se vive. De facto, no sentido bíblico, não se trata de “uma verdade de tipo filosófico, jurídico ou político, a usual adequação da mente à coisa”4, mas de uma pessoa, Jesus Cristo, em quem o discípulo deposita toda a sua confiança.

Ao afirmar-se como vida, Jesus está a sintetizar todo o seu ensinamento que o evangelho, no seu todo, e particularmente 11, 1 - 12, 50, nos dão conta. Apontando para algo que transcende a existência biológica, a vida que Jesus é e dá provém do Pai5 e para Ele orienta. Trata-se, por isso, de uma vida plena, profunda, que começa já no presente e se estende para além do tempo. É uma vida marcada pela esperança, pela relação com Deus e pela capacidade de amar sem medida. Em Jesus Cristo, a vida ganha um sentido mais alto, onde até o sofrimento se transforma e se afirma como transformador.

“Caminho, verdade e vida” não são ideias simples e separadas, mas uma síntese poderosa da fé e uma orientação útil para o quotidiano; são três dimensões práticas de uma mesma e única realidade, um convite a compreender e a viver a mensagem de Jesus Cristo, em ordem a uma vida mais plena. 

Em síntese, e para concluir, fazemos nossas as palavras de Gianfranco Ravasi: “Jesus é o ‘caminho’ que orienta para Deus através da ‘verdade’ da sua revelação, o Evangelho, e nos faz alcançar a ‘vida’ divina que ele partilha com o Pai”6.


 

 

1 Interessante é notar que a palavra é bem mais frequente nos Evangelhos Sinóticos, onde aparece 33 vezes (7, em Mateus; 6, em Marcos; e 20, em Lucas), chegando a ser, no Terceiro Evangelho, claramente estruturante, como o comprova o famoso caminho de Jesus para Jerusalém (cfr. Lc 9, 51 - 19, 28). 

2 Trata-se de um procedimento literário, muito frequente no Quarto Evangelho, de que Jesus se serve para desenvolver os seus ensinamentos. Jesus faz uma afirmação em sentido metafórico que, mal entendida pelos seus interlocutores (cfr. Jo 3, 3-4; 4, 10-11; 13, 6-10, entre outros), se constitui como uma oportunidade para desenvolver os seus ensinamentos. 

3 António Couto, Quando Ele nos abre as Escrituras..., Ano A (Lisboa: Paulus, 2013), p. 128.

4 António Couto, Quando Ele nos abre as Escrituras..., Ano A (Lisboa: Paulus, 2013), p. 128.

5 A palavra “Pai” assume uma particular relevância no evangelho de João, onde aparece 124 vezes. Só em Jo 14, 1-12, ocorre 12 vezes.

6 Gianfranco Ravasi, Secondo le Scritture, Anno A (Bologna: Piemme, 1996), p. 120.

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

27 abril 2026