«É a partir do cuidado da interioridade que se deve urgentemente recomeçar na pastoral vocacional e no compromisso sempre novo da evangelização. Neste espírito, convido todos – famílias, paróquias, comunidades religiosas, bispos, sacerdotes, diáconos, catequistas, educadores e fiéis leigos – a empenharem-se cada vez mais em criar ambientes favoráveis para que este dom possa ser acolhido, alimentado, protegido e acompanhado, a fim de dar fruto abundante».
Este pequeno excerto da mensagem do Papa Leão XIV para o 63.º dia mundial de oração pelas vocações, que celebramos no IV domingo do tempo da Páscoa (26 de abril de 2026), pretende ajudar-nos a refletir pessoal e comunitariamente sobre o tema – ‘A descoberta interior do dom de Deus’.
1. Por muito que nos possa ser difícil de interpretar, há uma grande e sintomática correlação entre a falta de padres – crise tão falada, mas nem sempre enfrentada a sério – e o inquestionável colapso da celebração do matrimónio, acentuadas uma e outra com um certo esfriamento da prática religiosa católica. Efetivamente nem sempre colocamos no mesmo quadro de avaliação estes dois problemas – ou serão antes sinais? – sobre o amolecimento da vivência da nossa fé. Dado que estamos num tempo nem sempre propício a ir à procura das causas, antes nos quedamos pelas consequências, relacionar o ministério sacerdotal com a vocação ao matrimónio deve-nos ajudar a tentar encontrar aquilo que nos levou a este estado das coisas e não a querermos desculpar-nos com razões sem razoabilidade. A importância das duas vocações – padres e matrimoniados – exige que sejamos dignos de resolver o problema na fonte e não andemos em desculpas sem nexo…
2. Vejamos aspetos da mensagem papal para tentar discernir este fenómeno transversal à Igreja católica:
* «O Senhor da vida conhece-nos e ilumina o nosso coração com o seu olhar de amor». Com efeito, cada vocação só pode começar a partir da consciência e da experiência de um Deus que é Amor». As diferentes vocações, desde o matrimónio até ao sacerdócio, passando pela vida consagrada ou secular, exprimem e manifestam que são «um dom imenso para a Igreja e para quem a acolhe com alegria». Não teremos esmorecido no amor, na confiança e no compromisso para com Deus, para com os outros e nós mesmos?
* «Do conhecimento nasce a confiança, uma atitude que é filha da fé, essencial tanto para acolher a vocação como para perseverar nela. A vida, efetivamente, revela-se como um contínuo confiar e abandonar-se ao Senhor, mesmo quando os seus planos perturbam os nossos». Não será que andamos demasiado ocupados e expostos com as coisas exteriores e perdemos a referência do nosso interior?
* «A vocação não é uma posse imediata, algo “dado” de uma vez por todas: é antes um caminho que se desenvolve de forma análoga à vida humana, em que o dom recebido, além de ser guardado, deve alimentar-se de uma relação quotidiana com Deus para poder crescer e dar fruto». Como não se entende a consistência do matrimónio sem um contínuo tempo de namoro, assim a prossecução do sacerdócio ministerial tem de continuar a crescer ou cairá na deceção, na desilusão ou no tédio interior e exterior.
3. O que está, verdadeiramente, em causa é a família, desde a noção que temos dela até à vivência de cada um, passando pela experiência anterior e quais as expetativas de futuro. Para enfrentarmos a questão da falta de padres e entendermos o tema do colapso dos matrimónios teremos de curar a família naquilo que tem de mais simples e significativo, como célula da sociedade, reduto e aconchego de quantos a compõem, espaço de descoberta e de afirmação e, porque não, escola de cidadania e como igreja doméstica. Será de uma família alicerçada no sacramento do matrimónio que Deus poderá em mais condições – embora não exclusivas, como temos tantos exemplos – para suscitar o chamamento a uma vida de entrega a Deus em Igreja.
4. Precisamos de criar ‘ambientes favoráveis’ para que o dom possa ser acolhido, alimentado, protegido e acompanhado, a fim de dar fruto abundante…