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Repovoem o Rio Este

 

Caminho com alguma assiduidade na margem direita do rio Este, o mesmo que se torna bazófias quando chove e minguadamente humilde quando escasseia a chuva. Gosto dele porque é nosso e amoroso como filho único. Tempos atrás parava um pouco para ver os peixinhos inquietos: ali e mais além traziam vida à quietude das águas correntes. Um dia, por um descuido de alguém, despejaram uma coisa qualquer e os peixinhos, que já tinham sido batizados por mim, apareceram a boiar, barriga para cima, povoando de morte as águas que eram seus berços. E eu, que algumas vezes deitava migalhas para os ver disputar o manjar que do “céu” lhes caía, agora espreito e volto a espreitar e de peixinhos nem sombras; nada mexe naquelas águas a não ser a saudade de as voltar a remexer. O Rio está morto, apenas algumas folhas dispersas navegam à superfície com andar triste e resignado de quem não tem outro transporte. Paro mais adiante, e nada; volto a suspender a marcha, olho lá para as areias do fundo, e nada. Nada ali mora para além do desespero e saudade que me fazem manear a cabeça como alguém que olha para uma coisa que assassinaram. Mal comparado lembro-me do Mar Morto, salvaguardando as devidas proporções. Como eu gostava de ver novamente o Rio Este repovoado de peixes. Não sei a quem posso dirigir este desejo, mas sempre tive a ideia de que a Câmara Municipal de Braga pode mexer no assunto com o poder de verdade quem gosta de satisfazer os desejos dos seus munícjpes. Não sou só eu que gosta de espreitar os peixes, outras pessoas passam, inclinam-se no gradeamento, e expressam-se maneando a cabeça desagradados, e comentam a falta de punição para aqueles que poluem o rio e dizem: “são sempre os mesmos e a câmara não quer saber”. Como eu, têm saudades dos peixinhos: uns, já tamanhinhos, outros menos desenvolvidos, mas todos apressando-se rio acima, águas abaixo, na busca do sustento que poderia vir à superfície. E isto emprestava ao nosso Rio aquele toque de existência que fazia dele um ser vivo. Mas o rio Este está morto e tornou-se uma tumba funéria. Alguém o transformou assim; diz-se que vão voltar fazer a mesma coisa, uma e outra vez, porque ninguém é punido por fazer do Rio um esgoto. Quem tem o dever de fazer alguma coisa para o repovoamento? Seja quem for, faça a “ressurreição”, por favor. Atualmente não passa duma triste levada que já foi rio. Leva à sua superfície folhas mortas e sujidades, mas fatalidade das fatalidades, reparo que continua a turbar-se com despejos que lá desaguam. Um rio sem peixes é como uma cabeça sem ideias ou um coração sem afetos. Não vivem, apenas vegetam.

Paulo Fafe

Paulo Fafe

27 abril 2026