1.Há dias, numa sala de espera (e isto é uma cena vulgar numa qualquer sala de espera ou num qualquer restaurante), estavam três pessoas, próximas umas das outras, pelo que presumi serem uma família: um homem, uma mulher e uma criança. O homem estava entretido com um tablet na mão, a dedilhar não sei o quê; a senhora, com um smartphone, fazia algo de semelhante; e a criança jogava com um tablet. Esta cena fez-me lembrar um artigo, que recentemente li, onde se lamentava que as novas tecnologias de informação estão a matar, aos poucos, a relação humana. A matar não direi, mas a afectar a sua qualidade, talvez, sobretudo nas crianças, nos jovens e nos adultos mais novos. Se bem que nos jovens há outras pulsões bem mais fortes do que os tablets que, em princípio, os inibem de se tornar dependentes.
Não se pode dizer que a culpa dos sentimentos de infelicidade ou de dependência seja das novas tecnologias de informação. Elas são apenas um instrumento de relação (aliás, um maravilhoso instrumento que amplia as nossas capacidades de comunicação) e, como qualquer instrumento, só vale pelo uso que se lhe der. Há neste uso uma confusão um pouco inconsciente: elas não são a realidade que nós desejamos, mas aparecem como sendo. A companhia que as imagens virtuais podem oferecer não é real, mas apenas virtual: é como se fosse, mas não é. A questão reside aí: como nos oferecem imagens virtuais da realidade que desejamos, tendemos, inconscientemente, a tratá-las como se fossem reais. É por isso que se acredita facilmente no que se vê nos meios de comunicação social, porque não há possibilidade de contraditório com a realidade. Nós precisamos da realidade para ser felizes, mas a sua representação virtual não tem essa capacidade. Ela é um pouco como a relação dos óculos com os olhos: os óculos não são os olhos, mas os olhos precisam deles para a ver melhor.
2.As tecnologias de comunicação entraram no nosso quotidiano de vida como se fossem um amigo real e levam-nos, de forma virtual, aonde gostaríamos de ir. E como o condicionalismo de vida tipo cidade da maioria das pessoas deixa muito a desejar, vivendo dentro de quatro paredes e sem espaço nem amigos para conviver, famílias com um filho ou nem isso e a trabalhar fora, solidão real, isso fez-nos agarrar aos instrumentos de comunicação para ampliar as nossas capacidades como se fosse uma ampliação física da realidade social que desejávamos. Mas, infelizmente, não é. Os amigos são de carne e osso, falam connosco, exprimem sentimentos...e estas representações não o podem fazer. Quer isto dizer que, quando usamos estes meios de comunicação, não nos podemos esquecer da realidade, não a podemos ficar apenas ligados à imagem virtual. Mesmo assim, muito fazem elas pela qualidade de vida e felicidade das pessoas…É uma extraordinária invenção que tem ajudado muita gente a fugir um pouco da solidão, embora fique sempre com meia solidão.
3.Não se pode demonizar as tecnologias da informação. Os problemas, se os há, não estão nelas, mas em quem as usa. É preciso activar permanentemente esta consciência da realidade para que as tecnologias de comunicação não nos venham gerar sentimentos de infelicidade, sobretudo em jovens e adultos mais novos, quando elas trazem ao pé de si representações de ideais que nem sempre podem ter, objectos de luxo que gostariam de possuir, um bom automóvel, um passeio ou umas férias de sonho, uma casa luxuosa, vestidos bonitos que são apelativos, apelos de imagens de um corpo belo e elegante que enchem os cofres dos ginásios, desejos de uma eterna juventude, um mundo sem fim de imagens que nos entram pela casa dentro e que nós gostaríamos de realizar... E quando se não consegue possuí-las, fica a sensação de frustração e de revolta e cresce a tentação de contrair empréstimos para as conseguir, empréstimos que muitas vezes, depois, se não se consegue saldar.
É preciso não esquecer que há quem as aproveite para vender ilusões. Cabe a cada um separar o útil do comercial, porque este mundo está dominado por uma luta de interesses pessoais.
Voltando ao caso da família que referi de início, se não se cultivarem as relações de amizade, não são as tecnologias de informação que o vão fazer por nós. Seria errado demonizar as tecnologias de informação por causa dos eventuais desvios e dependências que possam acontecer e recusar oferecê-las às crianças. Quando acontecem desvios ou dependências, algo de pessoal está por trás que é preciso investigar… A raiz dos problemas está nas pessoas, não no uso de tecnologias. Seria tão errado os pais recusarem aos filhos o uso dos meios de comunicação, que são uma extraordinária ferramenta de divertimento e de aprendizagem, como de lhes darem esses meios em troca de os não incomodarem… São os brinquedos de hoje, como outros o foram noutros tempos.
Autor: Manuel Ribeiro Fernandes
Estão a matar, aos poucos, a relação humana?
DM
11 fevereiro 2018