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A Pandemia que nos envergonha!

Os números da vergonha acabam de ser conhecidos, fazem parte do nosso quotidiano e ilustram a realidade de uma sociedade cada vez mais violenta, violadora das mais elementares regras de convivência e respeito mútuo. A sua divulgação não nos deixa indiferentes, mas paira sobre a sociedade portuguesa, a suspeita de conivência por falta de comparência. Ficamos horrorizados com os números que nos transportam para um cenário de guerra entre géneros, onde cresce diariamente o número de vítimas. Falamos das mulheres, claro, dos seus filhos e de uma estatística com rosto humano que equivale até finais de setembro a cerca de 25 mil casos contabilizados pelas forças de segurança (GNR e PSP). Este é apenas um número que cresce de ano para ano, enquanto assistimos com uma vulgaridade, quase insultuosa, à morte, à ameaça/coação, maus-tratos psíquicos e sexuais e sequestro. Não há dia nenhum em que as páginas dos jornais não relatem crimes de violência doméstica, enquanto escolhemos um dia para enchemos as nossas janelas e fachadas de panos pretos em sinal de luto impotente e anestesiante. E mesmo assim, poucos se atreveram a dizer presente, em Braga, na mobilização associativa para sinalizar precisamente, no Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, a necessidade de se continuar a lembrar e a lutar contra esta “Pandemia”. O único sinal positivo desta ausência massiva, é que foi a juventude a dizer presente e esse é o único dado positivo a merecer nota de destaque nesta crónica. Vem-me à memória uma frase que volto a repetir, sem vontade nenhuma: “a Indiferença mata” (Papa Francisco). O que somos verdadeiramente enquanto seres humanos está à vista de todas e de todos e nesse capítulo só há uma certeza: perdemos o respeito pelas vítimas ainda que lamentemos o desfecho na casa dos vizinhos, na rua, no trabalho, em família, em qualquer lado. Os horrores das histórias não aquecem nem arrefecem; parecemos anátemas da história do quotidiano marcada pela tragédia. Leio a história de Alessandro, um menino de dois anos e meio, que perdeu a mãe na noite de 20 de novembro de 2021, na pequena localidade de Reggio Emilia, em Itália. Ainda hoje chama pela mãe, enquanto o pai, julgado, confessa a sua monstruosidade e diz-se, ele próprio, vítima de violência familiar. Melhor sorte não teve a sua mãe, também ela assassinada em 2015, quando ele tinha 18 anos. Uma herança pesada que vai passando de geração em geração sem corte umbilical. Os números são tão bárbaros como as causas: 81 mil mortes em todo o mundo, no ano passado, mais de 25 mil vítimas em Portugal até finais de setembro, 30 mortes contabilizadas e uma intangível repercussão para famílias e sobretudo para as crianças, sejam elas apenas testemunhas do horror, ou vítimas mortais. O ano passado, um terço dos crimes cometidos foram presenciados por menores. Enquanto escrevo esta crónica, somam-se mais umas quantas vítimas por esse mundo fora, sucedendo-se os apelos para o fim do silêncio como aconteceu com o primeiro-ministro ou à convocação para a ação como pediu o Presidente da República. “Silêncios cúmplices e cómodas omissões”, assim retratou Marcelo, a postura de muitos portugueses. Recorro à memória para refletir sobre a condição da mulher no Estado Novo, na ausência de direitos e na glorificação dos deveres e o que isso significava para os direitos dos homens com uma enorme liberdade para matar, violentar e despojar a identidade feminina e o que significou o 25 de Abril para a conquista do espaço de dignidade e de liberdade. E contudo, a esperança que nasceu há 48 anos, passou depressa, tornando-se numa tragédia quotidiana, endémica ao longo de décadas e pandémica à medida que contribuímos de forma acelerada como coletivo para a sua vulgarização. Não vislumbro nem tenho soluções à la carte. Mesmo que aqui escreva que a educação é fundamental para que se crie uma sociedade onde todas e rodos se respeitam, a escola e a casa continuam a servir no cardápio, uma dose excessiva de violência gratuita, insensível e capaz de contaminar a comunidade envolvente. É da condição humana, no passado como no presente, ou efetivamente podemos fazer algo mais que lamentar? Pense! Se achar que pode fazer mais do que lamentar faça-o. Talvez ajude a salvar uma vida e esta possa responder: sim filho, a mãe está aqui!


Autor: Paulo Sousa
DM

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27 novembro 2022