A divulgação dos rankings escolares desencadeia um ritual previsível: identificam-se vencedores e vencidos e comparam-se escolas públicas e privadas. Os números parecem responder: quais são as melhores escolas? Mas talvez a primeira questão devesse ser outra: o que estamos, afinal, a medir? Uma média elevada nos exames revela resultados académicos que merecem ser reconhecidos. Não demonstra, por si só, que a escola responsável por esses resultados tenha ensinado melhor do que outra. Os alunos não chegam às salas de aula nas mesmas condições. Trazem diferenças de rendimento, apoio familiar, acesso a livros e expectativas anteriores à primeira avaliação. Ignorar estas circunstâncias é transformar desigualdades de partida em aparentes diferenças de mérito institucional. Também seria errado concluir que os exames não interessam ou que a exigência deve ser relativizada. Sem avaliar conhecimentos, torna-se difícil identificar problemas reais. A questão não é escolher entre resultados e justiça social. É recusar que uma única medida pretenda representar toda a qualidade educativa. Uma escola que recebe alunos com dificuldades acumuladas e consegue melhorar significativamente as suas aprendizagens pode prestar um serviço público de enorme valor, mesmo que as classificações finais permaneçam modestas. Outra, frequentada por estudantes com condições especialmente favoráveis, pode apresentar médias brilhantes sem que saibamos quanto desse desempenho resulta efetivamente do trabalho realizado dentro da escola. Comparar pontos de chegada sem conhecer os de partida produz retratos incompletos. Indicadores de progressão e superação merecem tanta atenção como as médias. Permitem perguntar não apenas onde chegaram os alunos, mas quanto avançaram. Isso muda a forma como avaliamos políticas e reconhecemos o trabalho docente. Contudo, nem esses indicadores esgotam a realidade. A escola não existe apenas para preparar exames. Deve ensinar a ler o mundo, a argumentar, a conviver com a diferença, a desenvolver autonomia e a descobrir capacidades que uma prova escrita dificilmente capta. Isso não dispensa o domínio da matemática, da língua ou das ciências; dá-lhe sentido. Há ainda um efeito menos discutido: quando uma classificação pública se transforma no principal sinal de prestígio, pode influenciar escolhas das famílias, estratégias de seleção e até prioridades pedagógicas. O instrumento criado para informar corre então o risco de modificar aquilo que pretende observar. As escolas passam a ser julgadas por um lugar numa tabela, enquanto o contexto em que trabalham desaparece da conversa. E o debate público, em vez de procurar compreender por que razão alguns alunos progridem e outros ficam para trás, limita-se a celebrar posições e a lamentar descidas. Precisamos, portanto, de rankings? Sim, se forem instrumentos transparentes, contextualizados e lidos com prudência. Não, se lhes atribuirmos a autoridade de uma sentença definitiva sobre a qualidade de uma escola. A informação é indispensável; a simplificação é que se torna perigosa. Uma política educativa séria deve cruzar resultados, evolução das aprendizagens, condições sociais, inclusão e percursos posteriores, sem esconder insuficiências nem fabricar desculpas. E deve fazer uma pergunta incómoda a cada classificação: o que teria acontecido a estes mesmos alunos se tivessem frequentado outra escola? É difícil responder, mas merece orientar a avaliação. No fim, talvez o maior equívoco seja imaginar que os rankings classificam apenas escolas. Na verdade, também espelham as oportunidades que distribuímos, as desigualdades que toleramos e o conceito de sucesso que escolhemos valorizar. Uma boa escola não é simplesmente aquela onde chegam os melhores resultados. É também aquela que consegue fazer mais por quem, à partida, tinha menos possibilidades de lá chegar.
O que os rankings não ensinam
Paulo Sousa
2 novembro 2026