Uma parede não é uma folha em branco à disposição de quem passa. Uma fachada não é um suporte gratuito de propaganda. O património público e a propriedade privada merecem respeito, mas os grafitis que desfiguram Braga mostram como esse princípio é ignorado por quem se julga no direito de deixar a sua marca.
Sejam inscrições políticas, assinaturas ou simples rabiscos, o resultado é o mesmo: superfícies danificadas, ruas visualmente degradadas e despesas impostas a quem não consentiu qualquer intervenção. Quem pinta vai embora. Quem fica enfrenta os danos e suporta o custo da sua remoção.
A gravidade é ainda maior quando está em causa o património histórico e classificado. Até a Sé de Braga, monumento maior da cidade e parte indissociável da sua história, é alvo de grafitis. Nem este símbolo está a salvo. A sua importância histórica, arquitetónica e religiosa não impediu que alguém o trate como uma parede qualquer, disponível para receber uma inscrição.
Não se atinge apenas uma superfície. Desrespeita-se um legado que atravessou séculos, pertence à memória coletiva e não pode ficar à mercê da vontade de quem passa com uma lata de tinta.
Confundir estas práticas com arte urbana é desvalorizar o problema. A existência de expressão artística no espaço público não transforma qualquer rabisco em arte, nem legitima intervenções feitas sem autorização. O que aqui está em causa é a apropriação de bens alheios e a imposição de marcas que os seus proprietários nunca escolheram.
Também o conteúdo político não oferece qualquer desculpa. A liberdade de expressão não concede o direito de transformar fachadas e monumentos em veículos de propaganda. Uma causa não ganha legitimidade por ser inscrita numa parede alheia. Pelo contrário, fica associada ao desrespeito pelo espaço comum e pelos direitos dos outros.
Por detrás de cada fachada há investimento, manutenção e, muitas vezes, um esforço significativo de conservação. Um gesto de poucos segundos pode comprometer esse trabalho e deixar marcas difíceis de eliminar, sobretudo em materiais antigos.
O impacto ultrapassa cada edifício. Uma sucessão de paredes vandalizadas altera a forma como a cidade é vivida e transmite uma imagem de abandono. Perdem os moradores, os comerciantes e todos os que querem usufruir de ruas cuidadas.
O mais inquietante é a banalização. De tanto vermos inscrições onde nunca deveriam estar, corremos o risco de deixar de reparar nelas e de aceitar a degradação como parte da paisagem.
Braga merece mais respeito. E quando nem a Sé escapa, fica exposta a dimensão de um problema que agride a propriedade, empobrece a cidade e desrespeita a sua história.