Eis um mito (indicado no título deste texto) com diversas “raízes”. Primeiro, a confusão feita com a noção subjacente ao termo “literal”, sendo que, se hoje se associa este termo a uma leitura científica e histórica dos textos que formam a “Bíblia”, no séc. III remetia para o sentido explícito de uma palavra ou passagem. Segundo: o surgir, entre 270 e 290, da escola catequético-teológica de Antioquia, que passou a criticar as leituras (demasiado) alegóricas da Escritura (típicas da análoga escola de Alexandria, fundadas perto do ano de 190) feitas em detrimento de uma abordagem textual focada nos aspetos filológico-gramaticais, acabando-se por generalizar, para toda a presente centúria, essa tendência como se fosse representativa global da mesma. Terceiro: diversas ondas concêntricas de críticas protestantes e reformadoras às leituras simbólicas levadas a cabo pela Igreja Católica e as confissões ortodoxas, querendo-se, com tais críticas, passar a ideia de que o Cristianismo Antigo seguira exegeses literais até à influência do Imperador romano Constantino I.
É curioso constatar que a segunda das “raízes” apresentadas já aponta, em si mesma, para uma refutação bem sólida deste mito: se uma determinada linha de interpretação textual, de índole literal, surge em resposta a outra substancialmente alegórica, é porque estoutra existia precedentemente – e até existia de modo proeminente.
De facto, se há um primeiro século em que a leitura não-literal teve um papel fundamental na aproximação cristã à Escritura é, justamente, o séc. III, não havendo – aliás e por motivos históricos complexos (em especial, a condenação posterior de diversos autores associados à escola de Antioquia) – nenhum texto, que tenha chegado até aos nossos dias e redigido nesse século, evocativo da necessidade de uma leitura “literal” dos textos dessa mesma Escritura.
Já quanto à conveniência de, ainda que se começando sempre que possível por uma primeira aproximação “literal” aos textos escriturísticos, não se ficar por esse tipo de interpretação, antes indo-se ao sentido espiritual (crístico e cruciforme) dos textos, há diversas evidências textuais que nos chegaram. Antes de apresentar duas das citações mais relevantes, começarei por elencar onde se pode ler as demais principais evidências que sei existirem (não colocando, neste elenco, as referências para as ditas citações).
Na sequência do dito imediatamente antes, posso principiar por remeter para: Clemente de Alexandria, “Miscelâneas”, 5, 4 e 6, 15 (dos começos do séc. III); [Pseudo-]Hipólito de Roma “Comentário ao ‘Livro do Profeta Daniel’”, 1, 14 e 1, 18, 5 (escrito entre 203 e 210); Orígenes de Alexandria, “Acerca dos Primeiros Princípios”, 4, 1, 15 e 16 (secção escrita ao redor do ano 225); Cipriano de Cartago, “Carta [62] a Cecílio”, 4 (de 253): e, por fim, Metódio de Olimpo, “O Simpósio”, 9, 1 (do ano de 280).
A continuação, apresento as supramencionadas citações: «no que diz respeito à Sagrada Escritura, a nossa opinião é que, na sua totalidade, esta tem um significado espiritual, mas não, na sua totalidade, um significado literal, uma vez que, em muitos locais, se demonstra que o significado literal é impossível» (Orígenes de Alexandria, “Acerca dos Primeiros Princípios” 4, 1, 16) e «é necessário passar da letra para o espírito e afastar o véu histórico. Pois, se nos mantivermos presos ao texto literal, seremos como crianças que olham para um quadro, mas não compreendem o que o artista representou» (Metódio de Olimpo, “O Simpósio”, 5, 6).