O problema de ter casa própria ou para arrendar a preços baixos tem variáveis que teremos de analisar. Que a falta de habitação para jovens e estrangeiros é uma realidade palpável, é indiscutível. Mas sendo isto uma rosa não foge aos seus espinhos, o primeiro dos quais aparece logo que a contestação vira revolução. E toda a revolução começa pelo uso da força das forças policiais e até do exército para manter a paz e a ordem públicas. Sabemos, pela simples observação, de desordens públicas que deram lugar a ditaduras que se tornaram duradoiras e o povo aplaude quando a ordem é restabelecida. Cá entre nós as variáveis em apreço têm, ainda, repito, ainda, uma leveza a cheirar a democracia. Mas noutros países onde a contestação virou vandalismo, com pilhagem a estabelecimentos, tem sido bem mais musculada a intervenção policial ou militar. Parece-me que está no momento certo para pensar se a contestação não criou o primeiro motivo para a instalação da ditadura. Depois dela instalada vira ordem e progresso e nada haverá que seja democrático, começando, como se sabe, pela proibição da manifestação pública. É o feitiço que se vira contra o feiticeiro. Se a contestação tem por fim levantar o problema da habitação, em Portugal, já cumpriu este desiderato e mais nada precisa para divulgar o direito constitucional a ter casa própria. Mas pensem que os adeptos dos governos “disciplinadores” vulgo ditaduras, espreitam a cada momento para acabar com a liberdade. Tudo tem o tempo próprio mesmo para reconhecimento de um direito. Mas não estarão a dar corda para se enforcarem, aqueles que estão a esticar demais a corda? Entre uma democracia musculada e uma ditadura é apenas uma questão semântica. Ainda gostaria de lhes lembrar que qualquer contestação prolongada por tempo que aborreça, cria, nas pessoas, a indiferença em primeiro lugar e depois a aversão consciente. Se a sociedade vos abandonar, a causa estará perdida e tudo o que ganhaste passará a ser catalogado, não como uma razão ou direito, mas como uma tropelia de jovens impertinentes. Pensai nisso e procedei sempre de modo que não prejudiqueis a democracia e depois pensai que podem estar a aproveitarem-se do vosso direito. Há palminhas que dão em palmadas, não se esqueçam. Quantas vezes se perde a razão na teimosia da contestação!
Problema de casa própria
Paulo Fafe
2 novembro 2026