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As ‘mães beta’ já chegaram?

De quando em vez surgem terminologias – sobretudo em matérias de educação – que tentam traduzir de forma mais adequada os métodos, as propostas e os desafios de saber estar no mundo, interpretando e olhando mais além. Assim encontramos expressão como: método helicóptero, mãe alfa e, mais recentemente, mães beta…Tentemos compreender os termos e vejamos as implicações:

1. O ‘método helicóptero’ será quando os pais, lá em casa, controlam muito os filhos, estão sempre ‘em cima’ deles. Não dão autonomia. É um estilo de parentalidade e acompanhamento caracterizado pela superproteção e pelo controlo excessivo. Os pais estão sempre a ‘sobrevoar’ a vida dos filhos, monitorizando cada passo. A ‘visão alfa’ é a da mãe dominante e controladora. Por seu turno, as ‘mães beta’ é uma resposta, em jeito de contraste, ao método anterior: defende que os filhos precisam de espaço para experimentar, cometer erros e ganhar autonomia. Porque a maternidade não tem de ser controladora e não é perfeita. A tendência tornou-se visível nos EUA nos últimos tempos: uma ‘boa mãe’ não tem de estar atenta a absolutamente tudo. 

2. Os conceitos mudam com os tempos, procurando entender as pessoas, interpretando as épocas e, quantas vezes, adequando-se às circunstâncias. Antes de tudo as pessoas necessitam de ser ajudadas a desenvolver a sua personalidade no tempo concreto e no espaço adequado à sua maturação. Se há campos de atividade nos quais temos visto uma certa evolução tanto na terminologia quanto nos comportamentos é esse da família, nalguma das suas vertentes, no apuramento de direitos e de responsabilidades dos seus membros e até na redefinição das múltiplas tarefas. A família de hoje enfrenta novos desafios, dentro e fora de portas (essas são mais do que lugares, são e tornam-se vivências) e mesmo no contexto social mais amplo ou mais restrito.

3. Por muito que o Estado pretenda apropriar-se do processo educativo deveria cingir-se à função de ensino, pois a educação é mais ampla do que a instrução e se esta pode ser estatal, aquela deve ser função da família. Por isso, é abusivo designar ‘ministério da educação’, pois deveria ser claramente só de ‘ensino’, tenha as etapas que possam ser aceitáveis ou desejáveis. A prova de intromissão do Estado na ‘educação’ é a pretensão de interferir na definição das vertentes formativas da pessoa humana, desde a identidade sexual até à razoabilidade de vínculo entre as pessoas – veja-se a anomalia de ‘união de facto’, onde se quer dar os mesmos direitos a quem não quis assumir os respetivos deveres – sem esquecer a propensão da ideologia de género que pretende impor-se desde a linguagem até aos comportamentos. Por que será que raramente na orgânica dos governos não aparece ao menos uma secretaria de estado dos assuntos da família (educação, habitação, segurança social ou cuidados de saúde)? Por que há medo de criar condições para a salvaguarda do essencial e nos derramamos a enfatizar o secundário?

4. Até no âmbito da Igreja andamos fora do ritmo dos valores bíblico-cristãos. Ainda nos entretemos com grupinhos de catequese em vez de cuidarmos da família no processo de formação na fé. Da minha parte tenho algumas expetativas sobre a renovação – que não seja mera recauchutagem – da educação cristã pelo ritmo da catequese. Continuar ainda com a mesma designação de grupos ao estilo escolar não auspicia grande mudança no conteúdo e na forma. Parece que as ações estão já desfasadas do pensamento. Não será preciso irmos todos ao mesmo ritmo, embora o itinerário possa e deva ser de proposta aberta. Não podemos tratar o assunto da mesma forma em contexto pretensamente urbano do mesmo modo daquilo que se passa em ambiente ainda rural. Estamos – ao nível desta vertente da Igreja – em confronto (mais explícito do que tácito) com outras propostas para as crianças e adolescentes: os desafios do desporto, os aliciantes ‘culturais’ concorrentes, a coincidência propositada de horários…

5. Tentemos não nos fixarmos no déjà vu nem nas certezas que fizeram história… antanho.

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

2 novembro 2026