A semana que findou foi uma verdadeira demonstração do poder do futebol: um jogador zangou-se com o seu treinador e a comunicação televisiva fez do caso uma coisa importante. Tanto o jogar como o treinador possuem uma maneira de estar de soberba elevada ao extremo. O jogador em causa sentiu-se enganado e o treinador em questão puxou dos seus galões de comando. Aquele foi-se embora desrespeitando adeptos, colegas e apoiantes e viu-se, mais tarde, obrigado a pedir-lhes perdão pelo abandono da seleção. Seguiram-se as opiniões díspares e, a comunicação televisiva, deu tanto tempo e espaço ao acontecido que julgamos exagerada e fora das verdadeiras realidades de Portugal. Não se falou de um assunto da maior importância para Portugal, isto é, a situação financeira de França ou a quase insolvência das finanças da Alemanha. E sabemos que uma e outra têm grande influência na economia de Portugal. Mas isso era assunto para esquecer porque o importante era que o jogador voltasse à seleção nacional e houvesse entre ele e o treinador uma paz de noite de Natal. E como vão a economia e finanças de Espanha, o maior importador da produção nacional? O silêncio sobre estas questões é pesado como um incómodo e é melhor saber se Portugal ganhou ou perdeu no campo da Noruega. O futebol ganhou foros de excelência nas preocupações da grande maioria dos portugueses; são gostos e, como se diz, gostos não se discutem, mas temos de discutir que existe uma forte probabilidade dos países mencionados entrarem em insolvência e, com isso, não comprarem o que exportamos. Portugal pode ter de aguentar uma recessão como já há muito não experimentava. Este estado de coisas dos países falidos ou pelo menos poderem entrar em incumprimento, tem, para os senhores comentadores da bola, a menor importância porque a primazia do debate é saber o que passa nos bastidores das tomadas de posição entre os dois intervenientes do conflito em apreço; julgo que este estar jornalístico tem o seu campo de ação mais que justificado porque os portugueses só pensam em futebol, rezam e fazem figas pelo sucesso mesmo quando chove ou troveja; um sacrifício nacional, económico e financeiro, mesmo quando este se aproxima, pouco lhes importa. Os senhores jornalistas da bola, sabem disso e com isso ganham a sua vida. Uma das maneiras do enredo não acabar depressa é alimentar a fogueira, dando-lhes um espaço grande, para esgrimirem razões; são as achas da fogueira; estão como o rio que segue para a represa sem se importarem se nela se podem afogar. Liga-se a televisão, esta ou aquela e mais a outra, e o assunto é sempre o mesmo porque o protagonismo é sempre o mesmo, futebol. Mal ou bem? Cada um come do que quer, mas a verdade é que não assistimos a um simples debate para os assuntos que podem marcar o nosso quotidiano próximo/futuro. Quando a trovoada desabar em chuva de lamentos, então vão aparecer aqueles que nunca falaram deste inundação e nada nos admiraria que dissessem, bem vos dizia? Já houve uma mesa de debate sobre a IA e a sociedade que vai criar? Já alguém falou no armamento europeu para a independência dos Estados Unidos? Quanto custa a suportar essa independência e onde se vão buscar os dinheiros para pagamentos? E como vão ficar diversos setores que eram estruturalmente o sustentáculo da nossa civilização? A educação destroçada, a justiça ignorada em valor e préstimo, a saúde nas mãos da IA, e a própria religião vai ser racionalizada como se a fé fosse algo a que se pudesse aplicar a lei da queda dos graves? Racionalizar a doutrina é destruir a fé, e o Papa sabe-o e sente-o muito claramente. Não se discutem-se estas coisas porque, em primeiro lugar, está a reconciliação dos dois desavindos da seleção nacional. Cada um segundo a sua paixão e dela se faz a paz das consciências mesmo que senão soubesse que existe miolo por baixo da côdea. No entanto, mais um golo de bicicleta e tudo fica em paz. Que bom deve ser sentir tão leve pensar!
O poder do futebol
Paulo Fafe
12 outubro 2026