A propósito das II Jornadas que a Associação Bíblica Portuguesa promoveu no Centro Regional de Braga da Universidade Católica Portuguesa, nos dias 9 e 10 de outubro, e em jeito de síntese, proponho aos meus leitores uma reflexão sobre Os Salmos: poesia e oração.
Os Salmos ocupam um lugar singular na história da fé bíblica. Neles, a palavra humana encontra-se com a Palavra de Deus, a poesia torna-se oração e a experiência quotidiana da existência abre-se ao mistério da presença divina. Nascidos da história e da fé de Israel, continuam a falar ao coração de homens e mulheres de todos os tempos. Neles reconhecemos a alegria e a tristeza, a confiança e o medo, a gratidão e a súplica, a dor e a esperança. Os Salmos são, por isso, simultaneamente, poesia e oração: poesia que dá forma à experiência humana e oração que a transforma em diálogo com Deus.
A poesia dos Salmos não é um simples ornamento literário, mas uma forma de dizer o indizível, de dar voz ao que permanece escondido nas profundezas da alma. A linguagem poética recorre a imagens, símbolos, comparações e repetições para exprimir a complexidade da existência e a intensidade da relação com Deus.
O salmista contempla a criação e reconhece nela a grandeza do Criador: “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Sl 19, 2). Noutra passagem, compara Deus a um pastor que conduz, alimenta e protege: “O Senhor é meu pastor: nada me falta” (Sl 23, 1). A imagem transforma-se numa profunda confissão de confiança: Deus não é uma realidade distante, mas presença que acompanha os caminhos humanos, mesmo quando atravessam vales sombrios.
A poesia dos Salmos não pretende propriamente informar, mas despertar, tocar e transformar. Através dela, a experiência humana encontra palavras para se apresentar diante de Deus. Por isso, os Salmos não se limitam a falar de Deus: falam com Deus, diante de Deus e, por vezes, a partir da dolorosa sensação da sua ausência.
Se a poesia constitui a linguagem dos Salmos, a oração é a sua respiração. Neles, a vida inteira transforma-se em diálogo com Deus ou mesmo em silêncio contemplativo. O salmista louva quando descobre a beleza da criação, agradece quando reconhece a bondade divina, suplica quando se sente ameaçado e lamenta quando a dor parece não ter fim.
Os salmos de louvor celebram as maravilhas de Deus e a sua fidelidade: “Louvai o Senhor, porque Ele é bom, porque o seu amor é eterno” (Sl 136, 1). Mas a oração bíblica não é feita apenas de serenidade. Há salmos em que a dor se converte em grito e o silêncio de Deus parece insuportável: “Até quando, Senhor? Esqueceste-me para sempre?” (Sl 13, 2). Esta pergunta não traduz necessariamente falta de fé; exprime uma fé que continua a dialogar, mesmo quando não compreende. Os Salmos ensinam-nos que podemos apresentar diante de Deus as nossas feridas, dúvidas e inquietações. A lamentação não é o contrário da confiança: pode ser a forma mais intensa de uma confiança posta à prova.
Assim, rezar os Salmos é aprender a olhar a existência com os olhos da fé, descobrindo caminhos de justiça, fidelidade e esperança. É reconhecer que nenhuma dimensão da vida humana precisa de ficar fora da relação com Deus.
Jesus rezou com as palavras da tradição de Israel e, na cruz, fez sua a oração do salmista: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Sl 22, 2; Mt 27, 46). A tradição cristã acolheu, por isso, os Salmos como uma herança espiritual fundamental. A Igreja reza-os na Liturgia das Horas, proclama-os na Eucaristia e encontra neles uma fonte inesgotável de meditação.
Ao rezar os Salmos, nem sempre exprimimos aquilo que sentimos naquele momento. Aprendemos também a rezar aquilo de que outros necessitam: num dia de alegria, recordamos os que sofrem; num dia de tristeza, deixamo-nos sustentar pela esperança. A oração dos Salmos alarga o coração, liberta-nos do isolamento e introduz-nos na oração de todo o povo de Deus. Por isso, os Salmos são uma verdadeira escola de humanidade e de fé. Ensinam-nos a agradecer sem esquecer, a lamentar sem desesperar, a pedir com confiança e a louvar sem ignorar as feridas do mundo.
Rezar um salmo exige tempo, escuta e silêncio. Não basta percorrer as palavras com os olhos, é necessário deixar que elas nos alcancem e iluminem a nossa existência. Por vezes, um único versículo pode acompanhar um dia inteiro, consolar uma perda ou despertar uma gratidão esquecida.
Os Salmos são poesia porque dão beleza e profundidade à palavra humana; são oração porque fazem dessa palavra um lugar de encontro com Deus. Neles, a existência inteira pode tornar-se louvor, súplica, lamento e esperança. A sua voz vem de longe, mas fala no presente: nasce da experiência de Israel e da humanidade inteira. Quando os rezamos, descobrimos que as palavras antigas podem tornar-se nossas e que a vida, com as suas luzes e sombras, encontra na presença de Deus uma possibilidade mais profunda de sentido.