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“Faça-me esse jeitinho!”

Dizia a vox populi d’antanho ser a sociedade humana dividida em dois grupos: “o dos que nascem de rabiosque virado ao Sol e o dos que vêm ao mundo com ele voltado p’rá Lua”. Isto é, afortunados, os primeiros, são os que nada lhes falta na vida e a quem, até, os seus caprichos são satisfeitos. Enquanto os segundos, despidos de ventura, infelizes e mesmo a lutar, tudo lhes corre mal. São aqueles a quem a sociedade de hoje, para não chocar, apelida de desfavorecidos. 

Sendo algo que já pouco sentido vai fazendo. Porquanto basta qualquer pessoa se filiar num Partido Político ou conhecer, de perto, uma figura importante de uma Instituição pública e tem logo a vida facilitada. Isto é, mesmo que se trate de alguém da classe dos famigerados “enluarados”, rapidamente poderá ver os seus fundilhos iluminados pelo porvir das manhãs soalheiras. Para o que será necessário ser reguila, cair nas boas graças dos seus correligionários e colaborar no rapace habitual.

Até mesmo nos serviços públicos de saúde, do SNS, terá muito a beneficiar, furando a fila. Apesar de lá sair à cena, de vez em quando, um caso a roçar a ilegalidade. E sempre que o Ministério Público cava à volta dela, a minhocada de cunhas aparece. Ou não fosse o SNS um vê se te avias de comadres e compadres, ajudados por certas figuras públicas influentes, a tentarem sanar as suas maleitas e as dos seus. 

Porém, a coisa agrava-se quando a cunha resulta em prejuízo para os pacientes portadores de certas doenças raras à espera, sine die, os seus avultados tratamentos. Tamanha falta de ética e moralidade vai levando a que alguns deles – perante o agravar da situação clínica – se vejam tentados a meter um pedido a pessoas influentes da ULS, da sua área, a fim de tentarem pôr cobro a tal desespero. 

Esta queda para o “faça-me esse jeitinho”, porque é de favorecimento que se trata, sempre houve, há e haverá. Só que, nos tempos que correm, tal prática está tão banalizada que se torna um perigo para o Estado de Direito Democrático. Isto, se pensarmos que alguma corrupção possa esconder. O que acaba por deixar os portugueses (desapadrinhados) desconfiados e incrédulos. 

Então, quando se trata do turismo de saúde vindo do estrangeiro, aos milhares, para os gratuitos Hospitais de Portugal, é de bradar aos céus. Trata-se de pessoal de quem o estado português nunca recebeu um cêntimo de impostos, nem a S. Social. O que não só é injusto, como é estupidez, grosseria e iliteracia financeira de quem dirige os destinos da pátria lusa. 

Desperdício, esse, que vem provocando uma onda de indignação nas pessoas que cá nasceram ou se naturalizaram e que, apesar de viverem demasiado sobrecarregadas com o custo de vida, laboram e cumprem com as leis e obrigações fiscais. Tendo por pano de fundo a frouxa liderança de quem nos vem governando e a incapacidade, mesmo deste Governo, em pôr cobro ao desperdício dos dinheiros públicos. 

O mesmo que manda a populaça poupar, apesar de saber ser ela quem se esganiça a trabalhar para manter o, cada vez maior, despesismo estatal. Pois quem se não o povo é quem paga os vencimentos não só dos senhores governantes, como dos deputados que, já de rabinho ao Sol (financeiro), produzem pouco e mal. 

Se é para a poupança, por que não começar pela Assembleia da República a derreter as gorduras do Estado? Sim, afinal, para que são precisos 230 parlamentares a lambuzarem-se à mesa do Orçamento, quando 50% seria o ideal? Talvez assim não só se afastariam os que se arrastam mudos e quedos pelo Hemiciclo, como se atenuaria a bagunça que por lá campeia. 

Quanto ao mediático “favorzão”, marcelista, direi que para além de terem voado € 4 milhões do erário público a favor de duas criaturas de fora do país, continua a ser gasto com ele demasiado tempo, energia e graveto. Tudo a tresandar a chico-espertismo, bem acolitado. Sendo por essas e outras manobras abstrusas que temos a carestia no cabaz e nos combustíveis elevadíssima. 

Narciso Mendes

Narciso Mendes

12 outubro 2026