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Entre quem foge e quem permanece

Quando dou início a escrever esta nota vive-se ainda o impacto – social, desportivo, político ou quase cultural – da saída de CR7 do contexto da seleção nacional de futebol masculino, desde Copenhaga, na Dinamarca. Por entre díspares leituras deste episódio turbulento no contexto do futebol, foram surgindo diversas posições entre o pretenso normal e o explosivo, sem esquecer a necessidade de vermos nos outros desafios ao nosso comportamento pessoal ou coletivo… Mais uma vez se gerou uma efervescência a roçar o extremismo, com posições quase aberrantes, irracionais senão mesmo doentias.

1. O grande CR escafedeu-se do estágio da equipa. Vá-se lá saber, de verdade, quais as razões. Para já podemos advertir sobre as consequências. Desde o acontecimento – a 1 de outubro – o país (e não só) reduziu os assuntos da vida pública a este tema: horas e horas de discussão, de disputa, de controvérsias, de provocações... tantas e tão díspares posições que farão, um dia, corar de vergonha muitos dos opinadores, entre a crítica e bajulação. Por vezes estes assuntos são convenientes emergirem, pois podemos ficar a saber com que tratamos ou como somos, tantas vezes, tratados (ou melhor destratados).

2. Este caso com alcance quase ‘nacional’ trouxe um pouco à luz do dia muito daquilo que nos podem caraterizar como povo, onde a ingratidão parece norma para muitas pessoas; quando a inveja tem tentáculos mais nocivos do que erva daninha; quando uma certa vaidade pode ofuscar a racionalidade seja de quem for, mesmo das vedetas em maré de algum insucesso; quando se misturam sentimentos com razões, mesmo que aqueles sejam mais fortes do que estas, onde porventura o coração pode atraiçoar a mente; quando podem crescer desculpas para não se aceitar o tempo de saída (e que não precisa de ser por velhice ou incapacidade); quando é preciso saber dar lugar a outros, mesmo que não sejam tão ‘bons’ quanto se possa considerar...

3. Quem foge – seja qual for o campo de atividade – costuma ser designado de: refratário, desertor, fugitivo, evadido, infiel, insubmisso, proscrito, desistente, traidor, desleal, cobarde, renunciante, negligente, relapso… Estes e outros adjetivos colocam-nos perante alguém que, tenha as razões que aduzir, não será muito de fiar, agora como no futuro, obrigando até a reler o seu passado à luz das consequências.

4. Ora, quem tenta discernir os acontecimentos da vida. procurando nada desperdiçar nem que seja o que possa ser de mínimo significado, cuidará de ver as coisas numa perspetiva de interpretação com cuidado para consigo mesmo e na relação com os outros. Tentemos percorrer alguns ‘episódios’ em que se notam sinais de menos boa capacidade de conduta… ao menos na teoria.

* Desde logo é questionável o empolamento das despedidas ou o embandeirar das entradas, estas porque não se sabe o que será o rececionado e aquelas porque isso pode esconder lacunas camufladas de virtudes.

* A descrição é um bom propósito senão mesmo o melhor critério… Quem chega como quem sai não passa de um simples elo da cadeia que já existia e que continuar a realizar-se.

* A capacidade de saber ser substituído sem azedume nem vanglória, com a mesma verdade daquilo que se é e o desejo do que gostaria de ser.

* A suficiente maturidade de não usar os outros em seu favor, estando dentro ou fora do poder, na boa maneira do adágio popular – se queres conhecer o vilão, coloca-lhe o pau na mão.

* Todos somos muito daquilo ou daqueles com quem nos relacionamos, sendo (quase inconscientemente) mais influenciados do que influenciadores.

= Evitamos propositadamente fulanizar – como sói agora dizer-se – com qualquer situação, deixando à experiência e ao histórico de cada um a possível repercussão das vertentes enunciadas…ou outras.

5. Recorrendo à singular sabedoria popular poderemos considerar: o cemitério é o melhor repositório dos imprescindíveis, ontem como hoje. 

 

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

12 outubro 2026