Não, não e não! Há nãos que se dizem com determinação. São nãos a algo que vai de encontro a princípios e ao que cada um acredita. Uma negação que precisa de confiança e de coragem. Somos sempre confrontados com coisas que nos aliciam a fazer o contrário, a dizer sim, a entrarmos em determinados ambientes, a alinhar em práticas e comportamentos desconformes com a ética e a moral. Evidentemente, não me estou a referir a posições como a do primeiro interlocutor na parábola do Evangelho do último Domingo. Há nãos que se devem respeitar, por humildade, coerência e propósito. Nesta perspectiva, não é aceitável, ora dizer-se isto, ora aquilo, da forma que melhor jeito dê.
Também há quem respeite a palavra quando diz sim e o mantém até às últimas consequências, aconteça o que acontecer, mesmo que se acabe prejudicado. São pessoas coerentes as que praticam esta regra. Pessoas com comportamentos assim deixam no caminho que atravessam uma referência positiva e louvável.
Verificamos, no entanto, vezes sem conta, acontecer quem diga sim e depois não cumpra e quem diga não e depois surpreenda com uma prática positiva. Qualquer mortal falha – errar é humano, costuma dizer-se. Mas, será que essa realidade nos deve manter calados relativamente ao que se passa, por exemplo, no país? A denúncia de mentiras e de injustiças, de incumprimento de promessas, serão questões que deveriam ficar apenas connosco e não as expressarmos perante outros? Afinal, todos falham e a maioria de nós talvez não seja santo!… Bem, eu não sou. Falho com frequência com Deus, das promessas que Lhe faço, dos propósitos que digo serem "firmes de emenda" e à primeira tentação logo me dou conta da contradição entre as palavras que profiro, ainda que mentalmente, e as minhas obras ou a falta delas. Quando nos cheira a chamusco, somos capazes de nos desdizer; é verdade que nos podemos safar, mas certamente que falhamos. No último Domingo, quando me propus escrever algo para preencher estas colunas, verifiquei que a prática desmente, vezes sem conta, os propósitos, tenham sido definidos com boas intenções ou fraudulentamente.
Muitas vezes aconselho-me nas leituras que faço por me suscitarem alguma reflexão. A do último "Dia do Senhor", como o meu saudoso Pai dizia, deu-me a certeza de que as acções são sempre mais fortes do que as propostas mais eloquentes. E neste desequilíbrio é sempre mais promissor quando se nega algo a alguém ou a uma colectividade, algo necessário, e depois se reconsidera e se vai ao encontro do que era desejado. Acontece com cada um e os seus semelhantes, como entre cidadãos e governantes. Repare-se no que se passou a semana passada no Parlamento: toda a oposição, sem excepção, estava determinada a votar favoravelmente uma baixa de impostos à revelia do Executivo. Uma parte chumbou as propostos de cada um dos "parceiros". Todos concordavam, mas apenas estavam dispostos a apoiar a sua própria proposta. Discursos perfeitos, eloquência na concordância… e nada! Foi um "sim" que acabou num não, tal qual o do segundo filho da história escutada na Eucaristia de Domingo. Tudo isso está a mudar alguma coisa na vida dos cidadãos? Não, pelo contrário, e está a causar confusão e descredibilidade dos agentes políticos em geral. Está a parecer, nas palavras de Mário Centeno, antigo ministro das Finanças e ex-Governador do Banco de Portugal, que em Portugal "As pessoas não têm em quem votar". E o Executivo tem cumprido tudo o que prometeu? Longe disso! Discursos bonitos, propostas cativantes, mas só isso. À boleia de alguma eventual instabilidade política, nem uns nem outros têm sido consequentes, mergulhando o país numa instabilidade de credibilidade. Falta de humildade e de coragem nas atitudes. De boas intenções está o Inferno cheio!