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Festas de idosos: aposta ou recurso?

Pelo menos na região Norte é quase recorrente vermos a promoção de festas com idosos – ainda na clássica configuração de maiores de 65 anos – tanto em convívios quanto em viagens (por vezes rotuladas de ‘peregrinação’) ou até em passeios e romarias. Apesar de ter participado nalgum destes itens nada por nada me move em contradizê-los e nem sequer em contestá-los. Há, no entanto, vários aspetos que podem ser tidos em conta, mais para dignificar do que para menosprezar. 

1. Milhares de pessoas mais velhas têm oportunidade de sair de casa e de realizarem os seus desejos de ir a Fátima, de conviver com outros semelhantes ou de aliviarem a solidão a que tantas vezes são votados senão mesmo ao sacudirem de um razoável abandono… social, familiar ou religioso. Se no ano passado estas viagens foram oportunidade de tentar cativar votos – estávamos em campanha para as eleições autárquicas – este ano os objetivos podem parecer mais anódinos, que não meramente ‘inocentes’… Veja-se o afã com que os autarcas deambulam por entre os convidados, distribuindo simpatias e afeições!

2. De facto, o público-alvo – os maiores de 65 anos – é uma larga fatia da população, tanto ao nível geral, quanto (cingindo-nos ao mais próximo) no distrito de Braga. Por isso, as centenas ou alguns milhares serão sempre uma razoável parte do grande bolo de potenciais atingidos.
Vejamos os números de maiores de sessenta e cinco anos, dados relativos a 2025: no país em geral – 2,7 milhões neste setor etário; no distrito (Braga): 846 mil habitantes, com 22,1% com idade superior a 65 anos; no concelho (Esposende) há 8.130 (20,8%) acima dos 65… Em resumo: um em cada dez habitantes, nos diversos espaços, tem mais de 65 anos.
É diante destes dados – nalguns casos não tão graves quanto, por vezes, os pintam – que podemos e devemos avaliar – isto é, ir muito para além de julgar ou sob uma perspetiva meramente negativa – as iniciativas que envolve os ‘nossos’ seniores. Seria muito pouco abonatória que os quiséssemos confluem para aquilo que relativiza a sua presença, utilidade, valor e essência na sociedade atual.

3. Olhemos com atenção um dado que revela o modo como os mais velhos são acolhidos, aceites ou cuidados na nossa sociedade. Os ‘censos de 2021’ contaram 26.799 alojamentos no distrito de Braga onde vive uma única pessoa com 65 ou mais anos e 59.730 onde só vivem pessoas dessa idade. São 5,2% do total do país, o que coloca Braga em 5.º lugar entre os 20 distritos.
O concelho mais envelhecido é Vieira do Minho, com 29,5% da população nessa idade, enquanto o menos envelhecido é Vizela, com 17,5%. A média do distrito fica abaixo da média nacional, que é de 27,8%.

4. Tendo recolhido estes dados, torna-se importante não depreciar aquilo que tantas entidades e associações, grupos e pessoas fazem em favor dos mais velhos, semeando o que mais tarde poderá ser resultado na reciprocidade dos cuidados, nas atenções e nos afetos. Quantas vezes nos momentos de levar a sepultar pessoas muito idosas se tem a sensação de estarmos a desperdiçar ‘bibliotecas’ de sabedoria única e irrepetível. Quantas vezes a partida de um dos ‘nossos’ mais velhos – por mui simples que tenha sido – configura uma perda com sabor de maior eternidade. Quantas vezes a melhor resposta a tudo isso nos faz quedar em silêncio reverente, humilde e de gratidão impressionante…

5. Por muito que se possa promover para não deixar os mais velhos para trás, tudo parecerá soar a oco se não soubermos atendê-los com a nossa presença sensível, dando-lhes o que eles precisam e não aquilo que nos pode parecer favorável, criando condições para serem acolhidos muito para além do nível físico-biológico e tornando-os agentes ativos das suas próprias vivências atuais. Por vezes é triste parecer que fazem dos mais velhos ‘crianças’ com rugas… Efetivamente as festas promovidas para os mais velhos não podem tornar-se recurso de entretenimento, mas aposta na sua valorização de sabedoria acumulada.

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

28 setembro 2026