Começo este texto, manifestando as minhas mais sinceras condolências à família e aos amigos do Dr. Sampaio (como era conhecido por [praticamente] toda a gente), assim como a todas as pessoas do seu convívio mais próximo!
Sim, o “Dr. dos balões” deixou-nos. E, tendo este grande profissional da Saúde feito parte da minha infância, não poderia deixar de escrever esta mensagem...
O Dr. Sampaio foi, para muitas crianças (assim acredito!), o médico que as tranquilizava, ao mesmo tempo que acalmava os corações das mães (e dos pais) que, durante décadas, o procuraram, confiando-lhe a saúde dos seus “pequenos tesouros” e entregando-lhe, também, um verdadeiro turbilhão de sentimentos – da apreensão à esperança.
Estar no consultório do Dr. Sampaio não era estar numa consulta [dita] “convencional”. Era, pelo contrário, “estar numa sala onde nós – as crianças – receberíamos, invariavelmente, um balão”. Não havia medo, mas curiosidade quanto à cor [do balão] que nos calharia, daquela vez. O choro e sentimentos como o medo ou a inquietação eram “convidados” a ausentar-se daquele lugar. Nascia, em contrapartida, o desejo de lá voltar, pois não era todos os dias que recebíamos um balão “só porque sim” (lembrando que estou a falar do contexto dos anos 90 do século passado!).
E por que motivo estou eu a escrever este texto? Porque fui uma das crianças que teve a “sorte” de ter este ser humano [inigualável] como médico pediatra, que ficava empolgada por ir “visitar” o Sr. Dr. que me iria dar um balão. Um balão! E é fantástico como o seu profissionalismo, aliado ao carácter e à capacidade de “calçar os sapatos dos outros” (neste caso, uns “sapatinhos”, pois estamos a falar de “mini seres humanos”) – a tão conhecida “empatia” – deixou recordações em crianças (que, agora, já fazem parte do “grupo dos adultos”), usando algo tão simples como... um balão.
Naquele tempo (embora não o verbalizasse), perguntava-me (meio fascinada, meio incrédula):
“Como é possível ter sempre balões em casa (neste caso, no consultório)?”;
“Será que [os balões] estão guardados/escondidos em algum “lugar secreto”, capaz de fazer com que eles nunca acabem?”;
“Este Sr. Dr. dá mesmo balões a todas as crianças? Como consegue?”.
Já em casa, era instruída a, sempre que pedisse a um adulto que “lhes desse o nó”, apelar ao uso de “pouca força”, de modo a, no final [da sua utilização], eu poder guardá-los. Conclusão? Há uns anos, enquanto organizava o “armário dos brinquedos”, encontrei um saco que continha “algo pegajoso”. Olhando com mais atenção, percebi que eram “os balões do Dr. Sampaio”... E, como nada [material] dura para sempre, tive de desfazer-me desse saco. Afinal de contas, há muitos anos que o seu conteúdo tinha cumprido a sua função. Os anos foram passando e o Dr. Sampaio já há muito tempo que se tinha “retirado de cena” (enquanto “meu” médico pediatra). Contudo, a missão dele, o seu legado, fez com que:
Construísse memórias muito bonitas, no imaginário de incontáveis crianças;
Se apresentasse, primeiramente, como ser humano (só depois deixava aparecer o “título” – Doutor);
Tratasse das crianças, curando as suas doenças;
Acalmasse inúmeros corações (de adultos aflitos);
Amparasse medos e inseguranças (e tantos outros sentimentos que apertam o coração).
Enfim, diria que o Dr. Sampaio foi “pioneiro” na desmistificação da Pediatria, transformando a ideia das [tão temíveis] “batas brancas” em simples “roupas de trabalho”.
Termino este texto, na certeza de que o Dr. Sampaio deixou um pouco da sua essência na vida de quem, com ele, privou. Fez, também, com que muitos olhos brilhassem, sempre que distribuía os seus balões. E, agora, mesmo já não estando entre nós, deixou os nossos corações mais “quentinhos”. Afinal de contas, e neste contexto em particular, médico e criança fazem, mutuamente, parte de alguns “trechos” das vidas um do outro – encontros breves, talvez, mas capazes de permanecer na memória muito depois de a consulta terminar, e de ocupar um lugar numa infinidade de histórias.
Até já, Dr. Sampaio... e muito, muito obrigada por tudo!