Educado na fé cristã ortodoxa, León Tolstói, quando tinha dezoito anos, «já não acreditava em nada do que lhe tinham ensinado».
Dois anos antes, «deixara de rezar, de ir à igreja e de comungar».
No seu discernimento – com algum preconceito? –, entendia que a crença impactava sobretudo «as pessoas mais boçais, cruéis e imorais, mas que se consideravam muito importantes».
Não espanta que, mais tarde, tenham sido «os crentes pobres, simples e incultos, como os peregrinos e os camponeses (mujiques)», a concorrer para o seu regresso à fé.
Como é que um intelectual desta magnitude – «Guerra e Paz» e «Anna Karenina» assim depõem – consegue inalar sapiência em pessoas (aparentemente) tão rudimentares?
Tolstói percebe que a coerência prevalece sobre a eloquência. Enquanto a vida dos crentes com quem convivia «estava em contradição com a fé, a vida dos crentes trabalhadores era uma confirmação do sentido da vida que a fé lhes dava».
Eis o que mais o impressionava. «Contrariamente a nós, que quanto mais sábios nos julgamos menos compreendemos a vida, aquelas pessoas vivem, sofrem e aproximam-se da morte com serenidade e até com alegria».
Consequência? «Ganhei amor por essas pessoas». E foi junto delas que «reconheceu a verdade».
A procura de Deus não o fazia percorrer os trilhos do raciocínio, mas a escalar as encostas ondulantes do sentimento.
Na sua «via cordialis» (em que Miguel de Unamuno tanto empreendeu), Deus não o flagrou «no labirinto das suas reflexões, mas no estremecimento do seu coração».
Num primeiro momento, «dirigiu as suas preces Àquele que procurava e não encontrava». Depressa, porém, passou «a rezar Àquele que procurava».
E, solipsisticamente, dizia a si mesmo: «Ele conhece e vê as minhas buscas, o meu desespero, a minha luta. Ele existe».
Foi compreendendo que lhe bastava «sentir-se ciente de Deus para viver» e, em contramão, «bastava esquecê-Lo para morrer».
Uma voz eclodiu no seu imo: «Ei-Lo. Ele é aquilo sem o qual é impossível viver. Conhecer Deus e viver é a mesma coisa. Deus é vida».
León Tolstói voltou a viver quando reencontrou Deus. A força da vida reapareceu nele.
Ao mesmo tempo, concluiu que, para compreender a vida, tinha de desocupar os círculos aristocratas em que se movia e lançar-se na direção do «povo simples e trabalhador, aquele que faz a vida».
Foi com o povo simples que reaprendeu que «a essência da fé consiste em dar à vida um sentido que nem sequer se elimina com a morte».
Foi com o povo simples que captou «a verdade revelada ao amor». Pelo que, «ao transgredirmos o amor, perdemos a possibilidade de conhecer a verdade».
E a verdade desvelou-se a Tolstói «ao ouvir as conversas de peregrinos e de camponeses analfabetos sobre Deus, a fé, a vida e a salvação».
Voltou a estudar «aquela mesma Teologia que outrora rejeitava com desprezo», instigado por «crentes pobres e incultos». Quem diria?