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Por Entre Linhas e Ideias

Conseguimos mesmo guardar um segredo? É segunda-feira à noite e, depois de um dia de setembro com um calor quase insuportável, sento-me à secretária para escrever esta crónica sem saber bem por onde começar. Confesso-vos, caros leitores, que nem sempre é fácil encontrar um bom tema e, enquanto procuro inspiração, olho para trás, para as estantes onde guardo os meus livros, e duas capas prendem-me a atenção. Em ambas, a palavra Segredo chama imediatamente a atenção e pensei que talvez estivesse ali o tema que procurava.

Ora, os segredos atravessam as nossas vidas, porque há segredos que guardamos por amor, outros por medo, alguns por prudência e outros porque nem tudo o que sabemos deve ser contado. Há segredos de família, de amigos, de Estado e aqueles que começam pela perigosa frase “vou contar-te uma coisa, mas fica só entre nós”. Há ainda os que passam de geração em geração e aqueles que alguém decide levar consigo para o túmulo. Não será por acaso que existe a expressão popular “um segredo guardado a sete chaves”, embora haja sempre quem não consiga ficar de boca calada.

O filósofo e sociólogo alemão Georg Simmel escreveu que o segredo é “uma das maiores conquistas da humanidade”, porque nos permite preservar uma parte da nossa existência fora do olhar dos outros. Talvez tenha razão, meus amigos leitores, porque uma sociedade onde todos soubéssemos tudo acerca de todos seria insuportável. A transparência pode ser uma virtude, mas cada pessoa precisa também de pensamentos e memórias que não tenhamos de tornar públicos.

Caros leitores, se há segredos difíceis de guardar, há outros que resistem ao tempo. Basta pensar na gastronomia. Em Portugal, a receita dos Pastéis de Belém, com origem no Mosteiro dos Jerónimos, continua reservada aos mestres pasteleiros e é preparada num espaço chamado precisamente “Oficina do Segredo”. Convenhamos que há segredos que, além de bem guardados, fazem água na boca.

A televisão também percebeu o fascínio que o segredo exerce sobre nós. A Casa dos Segredos transformou-o num jogo em que cada concorrente entrava com algo para esconder enquanto tentava descobrir o que os outros escondiam. Talvez isso diga alguma coisa sobre nós, porque gostamos de preservar os nossos segredos, mas temos uma curiosidade quase irresistível pelos segredos alheios.

Muito antes da televisão, os mitos já conheciam esta fragilidade humana. Conta a mitologia grega que o rei Midas recebeu de Apolo umas pouco elegantes orelhas de burro e tentou escondê-las. O barbeiro descobriu o segredo e, incapaz de continuar calado, abriu um buraco na terra e sussurrou lá para dentro aquilo que sabia. Do lugar nasceram juncos que, agitados pelo vento, acabaram por repetir o segredo. Os gregos já pareciam saber que certas coisas, por mais fundo que sejam enterradas, acabam por encontrar maneira de vir à superfície.

Não admira, por isso, que o cinema tenha explorado tantas vezes este fascínio pelo que permanece escondido. Quem não se lembra de O Código Da Vinci, adaptação do romance de Dan Brown, em que Robert Langdon segue pistas, símbolos e enigmas relacionados com uma sociedade secreta e com o mistério do Santo Graal? É ficção, naturalmente, mas talvez o enorme sucesso da história revele esta nossa velha vontade de acreditar que, por detrás daquilo que conhecemos, existe ainda alguma coisa escondida à espera de ser descoberta.

E quando falamos de segredos, talvez o segredo dos segredos, seja o segredo de Estado. Um bom exemplo foi a crise dos mísseis de Cuba, em 1962, quando Estados Unidos e União Soviética estiveram perto de uma guerra nuclear e parte do entendimento entre Kennedy e Khrushchev ficou longe da opinião pública. Por vezes, o segredo não serve apenas para esconder, mas também para proteger e dar tempo à razão.

E agora, meus amigos leitores, quando esta crónica vos chegar às mãos na quarta-feira, espero que o calor já tenha dado alguma trégua. Concluo com Séneca, que lembrava que, se queremos que outro guarde o nosso segredo, devemos começar por guardá-lo nós próprios. Dois mil anos depois, continuamos a culpar quem contou aquilo que nós próprios não conseguimos guardar.


 

“Guardar um segredo é, muitas vezes, apenas respeitar a confiança que alguém depositou em nós.”

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

16 setembro 2026