Há uma ideia que precisamos de abandonar: a de que basta uma empresa ser gentil para saber lidar com o sofrimento de quem lá trabalha. Não basta. Uma organização não precisa de ser terapeuta para ser humana, mas precisa de saber a diferença entre tratar e reconhecer. Tratar não lhe cabe. Reconhecer, sim: acolher sem invadir, não exigir respostas imediatas, saber que produtividade e sofrimento podem coexistir. E isso começa por admitir uma coisa simples: ninguém deixa a sua vida à porta do trabalho. Levamos connosco as preocupações, as doenças, as separações e, inevitavelmente, também as perdas. Levamos mochilas que não se veem.
Uma pessoa pode chegar ao trabalho depois de uma noite num hospital, de um diagnóstico difícil, de acompanhar um filho em sofrimento ou de perder alguém. Pode estar a viver o luto pela morte de um pai, de um companheiro, de um filho ou a atravessar um divórcio ou uma perda gestacional que quase ninguém à sua volta reconheceu como perda. Por fora, continua a ser a mesma pessoa. Mas algo pode ter mudado profundamente. E é aqui que começa uma questão de que ainda falamos pouco: o que fazemos com as perdas quando elas entram no local de trabalho?
Durante muito tempo, a resposta pareceu simples: não fazemos nada, ou fazemos o mínimo para que a pessoa regresse depressa àquilo que fazia antes. Existe uma expetativa silenciosa de que o sofrimento deve ficar no espaço privado: de que podemos sofrer em casa, mas que, ao voltar ao trabalho, se espera que retomemos o funcionamento habitual. Como antes. E esta palavra merece atenção, porque depois de uma perda raramente somos exatamente quem éramos antes dela.
O luto não é universal. Há quem precise de se afastar e há quem encontre no trabalho uma estrutura que ajuda a atravessar os dias. Por isso, pensar o luto apenas como questão individual é insuficiente: quando alguém perde uma pessoa querida, a perda chega também à organização onde trabalha.
É aqui que as empresas têm uma responsabilidade que vai além de uma licença ou de um procedimento. Uma licença é importante, mas não ensina uma organização a lidar com uma pessoa enlutada. O que acontece quando essa pessoa regressa? Quem a recebe? Existe espaço para dizer como está, sem que isso seja lido como falta de profissionalismo?
Reconhecer significa também preparar. As organizações não sabem quando a morte vai entrar pela porta, mas podem decidir antecipadamente como querem responder: criar políticas de luto mais humanas, formar quem lidera, definir procedimentos claros, ensinar a comunicar sem recorrer às frases feitas que tantas vezes aumentam a solidão de quem sofre. Porque dizer “tens de ser forte” ou “o tempo cura tudo” revela, muitas vezes, apenas o nosso desconforto perante a dor do outro. Precisamos de aprender a escutar, e a permitir que alguém diga “não estou bem”, sem que isso ponha em causa a sua competência.
Não se trata de criar empresas onde ninguém sofre – isso seria impossível – mas empresas que saibam reconhecer o sofrimento quando ele aparece, sem se sentirem obrigadas a tratá-lo. Porque ele vai aparecer. Mais cedo ou mais tarde, uma mochila invisível vai entrar pela porta. Não podemos retirar as mochilas dos ombros de quem trabalha connosco. Mas podemos decidir como as recebemos. Cuidar não é o contrário de trabalhar. É reconhecer que, antes de trabalhadores, existem pessoas – porque ninguém deixa a sua vida à porta do trabalho.