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Pode haver perdão na política?

Admitamos, ainda que havendo fundadas suspeições, que o Ministro da Administração Interna não tem qualquer culpa no cartório. Devia demitir-se? Devia. E o Primeiro-Ministro, perante as circunstâncias e mesmo que mantenha a confiança no seu colaborador, faz bem em não o demitir? Não. Mas, o actual responsável pela Administração Interna é um bom, para não dizer muito bom Ministro, nas palavras do chefe de Governo!… Ainda assim. Devia demitir-se ou ser demitido. Certamente nos lembramos de bons e muito bons Ministros que foram para a rua, demitidos, pois claro, por coisa pouca, aparentemente, por minudências. O que teriam feito, em casos como o que está em causa, os ex-Primeiros-Ministros Aníbal Cavaco Silva e José Sócrates? Acima das relações e dos supostos bons comportamentos, a dignidade das Instituições. Considero que se trata de um bom princípio em Democracia. Se não acreditarmos nessas, como fica o regime em que nos revemos? Não havendo consequências, as suspeições vão continuar e a Comissão de Inquérito Parlamentar de que se fala vão enlamear ainda mais as Instituições. Quem nos representa e quem nos governa são quem devem prestigiar primordialmente, e sem favor, as mesmas.

É preciso que se preserve o bom nome e a dignidade das pessoas, governantes incluídos, mas deve ser considerado que, em princípio, os mesmos se comportem segundo a lei e os últimos aceitem exercer o cargo com abnegação, humildade e desprendimento, com sentido de Estado e de missão, para bem e em representação dos eleitores. É preciso ser-se consequente. Ora, assim sendo, como não ousam alguns assumir os melhores valores? Por que não são consequentes? Quantos de entre os eleitores concordam com o rumo do que está a acontecer? Podem não concordar com a queda do Governo, mas a grande maioria dos cidadãos estará de acordo com a manutenção do Ministro? Poucos, certamente. E só não são menos – estou também certo de que já o foram antes do debate da última moção de censura ao Governo – porque o Primeiro-Ministro decidiu branquear a situação pantanosa com a promessa de um benefício aos aposentados mais humildes, uma arma contra a qual a oposição, apanhada de supetão, ficou sem palavras.

O eleitoralismo não é bem-vindo num sistema democrático. É verdade que o Governo tinha feito a promessa de distribuir alguma da folga que pudesse existir pelos mais desfavorecidos, mas fez acreditar, um pouco antes do debate da censura, que essa folga não existiria este ano e é nisso que me baseio, sobretudo, para acusar o Executivo de eleitoralismo. Havia que guardar o segredo para retirar dividendos políticos ou remendar qualquer mal-estar!… Infelizmente, o mal-estar é grande demais para não deixar de fora a fralda da falta de decência política que vai florescendo aqui e ali, sem precedentes.

Voltando ao princípio para rematar. Será que pode haver perdão na política? Poder, pode. Mas, costuma dizer-se que em política o que parece é. É assumido pela generalidade dos agentes. E sendo, não havendo admissão sincera e cabal de culpa, e mesmo que houvesse, o perdão é difícil, além do mais, inútil. Por que ou por quem espera o Chefe de Governo? De toda a forma, as faltas em política tratam-se de forma diversa do que acontece nas relações sociais. As falhas até podem ser compreendidas e perdoadas, mas os infractores, representando todos e não apenas alguns, têm que ser consequentes com os seus actos e a sua história. E, sendo credíveis, impedir, a todo o custo, que os casos de ontem e de hoje, da sua responsabilidade, contaminem a vida de amanhã. Só o conseguirão com actos de humildade e desprendimento, nunca com manobras de diversão, nem fazendo valer princípios de hoje que possam vir a destruir o futuro.

Luís Martins

Luís Martins

15 setembro 2026