"Então, tudo bem?" é uma das perguntas que mais ouvimos ao longo do dia: quando encontramos alguém no elevador, quando cruzamos com um colega no corredor, quando passamos por um vizinho na rua ou quando reencontramos alguém que já não vemos há algum tempo.
E a resposta parece quase automática: "Sim, tudo bem."
Respondemos antes de pensar. É uma espécie de gesto aprendido. Uma pequena regra invisível das nossas relações: alguém pergunta, nós respondemos que está tudo bem, e seguimos caminho.
Mas será que está sempre tudo bem?
A verdade é que nem sempre está. Há dias em que estamos cansados. Há momentos em que carregamos preocupações que não partilhamos, medos que escondemos ou tristezas que ninguém consegue ver. Há fases da vida em que tudo parece pesado, mas ainda assim respondemos: "Está tudo bem." É mais simples, porque muitas vezes, não queremos incomodar, não sabemos explicar ou aprendemos que existem dores que devemos resolver sozinhos.
Esta é uma das maiores contradições da nossa sociedade: perguntamos como alguém está, mas nem sempre estamos preparados para ouvir uma resposta verdadeira. Vivemos num tempo em que a imagem de força tem um valor enorme. Admiramos quem aguenta, quem continua, quem resolve, quem parece não precisar de ninguém. Desde cedo aprendemos a valorizar a autonomia e a independência. Mas, algures neste caminho, confundimos força com ausência de necessidade. Como se precisar de alguém diminuísse aquilo que somos. Como se pedir ajuda fosse uma prova de incapacidade.
A pessoa que continua a trabalhar apesar do sofrimento não é vista como alguém forte: é simplesmente alguém que está bem. A pessoa que sorri apesar da tristeza não é reconhecida pela sua coragem: é alguém que, aos olhos dos outros, parece não ter problemas. A pessoa que nunca pede nada acaba por desaparecer porque “não precisa” de cuidado. Quando aprendemos a esconder a dor, o mundo à nossa volta acredita que essa dor não existe.
Pedir ajuda implica uma exposição difícil. Significa permitir que alguém veja uma parte da nossa vida que preferíamos manter protegida e reconhecer que existem momentos em que as próprias forças não chegam. Muitas vezes, esse pedido é adiado por receio de ser um peso ou porque acreditamos que deveríamos conseguir resolver tudo sozinhos. Mas, a dor escondida torna-se solitária e percebemos isso quando a vida muda de forma inesperada perante uma doença, uma perda, uma separação ou qualquer experiência que transforme aquilo que éramos antes. Nesses momentos, antes de conseguirmos falar sobre o que vivemos, precisamos sentir que esse sofrimento tem lugar e merece ser reconhecido.
Precisamos criar espaços onde as pessoas possam existir na sua vulnerabilidade sem terem de pedir desculpa por ela, onde o sofrimento possa ser acolhido antes de ser corrigido. Também precisamos mudar a pergunta e estar disponíveis para ouvir a resposta. Cuidar começa quando damos espaço para alguém existir exatamente como está. Pedir ajuda não deveria ser entendido como uma falha individual, pois todos nós, em algum momento, precisaremos de alguém.