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A forma e a circunstância

Mesmo numa ”sociedade aberta” como a nossa no Ocidente que integramos, incensada por Karl Popper, ninguém se constrói em absoluta liberdade, já todos o percebemos. Assumimo-nos como católicos, muçulmanos ou hindus, maioritária e substancialmente, não porque nos fincamos convictamente nos princípios da nossa crença, mas porque assim fomos formatados por aqueles que cuidaram de nós nos primeiros anos, por regra a família biológica. Quando adotamos posturas mais tolerantes no trato com terceiros, quando vertemos mais ou menos empatia com o estrangeiro entre nós, para lá de contextos do momento, refletimos também os valores que nos foram transmitidos e a mundividência em que fomos progressivamente envolvidos.

Estes considerados introdutórios não significam que nos podemos desculpar por todas as decisões ou comportamentos menos meritórios que adotemos, remetendo-os para a influência do meio ou, numa visão mais radical e próxima de Sigmund Freud, para o nosso inconsciente ou para arquétipos civilizacionais.

Aterremos, centremo-nos no concreto.

No verão do ano passado, integrei-me num tour pedestre “gratuito” pelas ruas de Copenhaga, conduzido por uma jovem de origem latino-americana. Durante cerca de 1h30/2h00, competentemente a jovem guia verteu apontamentos vários sobre a história dos monumentos, estátuas ou espaços que calcorreávamos. Entre as marcas relevantes da mentalidade dinamarquesa, a guia lembrou a transparência comportamental dos cidadãos, demonstrada pelo facto de a generalidade das janelas nas residências não ostentarem cortinas e pela inexistência de fuga aos impostos. O estado social dinamarquês era generoso, frisava, mas contava com a indeclinável responsabilidade fiscal de todos os cidadãos.

No final do percurso, como todos esperávamos, a guia lembrou que a generalidade dos participantes costumava retribuir o seu desempenho com uma gratificação, não sem frisar que o seu sustento assentava no papel que acabava de desempenhar. Acrescentou ainda que habitualmente cada participante lhe oferecia vinte ou trinta euros, o que a generalidade cumpriu, remunerando-a, no total, em algumas centenas de euros. Todavia, esta guia não falou sequer na possibilidade de passar algum recibo pelo trabalho que acabava de cobrar, ainda que a maioria pudesse desdenhar essa possibilidade. Desconheço se o zelo da máquina fiscal dinamarquesa encontrou alguma solução para taxar estes rendimentos. Provavelmente, a coberto do seu relativo anonimato e despida dos compromissos éticos dos indígenas – que antes enfatizara –, os rendimentos desta guia escapavam, no substancial pelo menos, ao cerco do fisco nacional dinamarquês. 

Afinal, Luís Neves, o atual ministro da Administração Interna, talvez ajuíze que se não fosse figura pública mais valia ser freelancer na Dinamarca. O cerco mediático e judicial à atividade e à vida do ministro (antes de o ser) mostra-se implacável e, aparentemente, incontornável. Só um singular estoicismo de Luís Neves, que viverá tempos duros certamente, e uma cobertura férrea do primeiro-ministro à sua figura poderão evitar a demissão do atual titular do MAI a breve prazo.

A atual projeção pública acrescentada do ministro Luís Neves – a quem genericamente todos reconhecem uma atuação meritória aquando da precedente chefia da Polícia Judiciária – torna difícil que a sua atuação passada beneficie de indulgência ou apagamento benévolo como sucedeu com a guia que acabo de evocar, tal como sucederá, aliás, com as comuns infrações que muitos portugueses anónimos cometem. 

A democracia, a sociedade livre, esmaga, supera, o autoritarismo nos campos da ética e da moral. Todavia, a ética comportamental releva mais numa sociedade livre, que só funciona bem com a assunção das devidas responsabilidades individuais por cada um. De outro modo, corroída a liberdade pelos maus exemplos, a repressão tenderá a ganhar caminho de formas várias.

Amadeu J. C. Sousa

Amadeu J. C. Sousa

8 agosto 2026