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Burlas a idosos – a vulnerabilidade não pode ser uma oportunidade de negócio

 

Quem de nós nunca teve conhecimento de uma burla cuja vítima foi uma pessoa idosa? Este artigo surge na sequência de uma conversa recente com uma amiga, que me contou que o irmão, com mais de oitenta anos, recebeu uma chamada telefónica de alguém que se apresentou como um velho amigo, que já não via há muitos anos. Durante a conversa, o interlocutor afirmou ser diretor de uma empresa e foi construindo uma história aparentemente credível, procurando conquistar a confiança da vítima. Tratava-se, afinal, de mais uma variante do conhecido «conto do vigário».

Os esquemas atuais de burlas têm por missão explorar emoções humanas como medo, afeto, confiança, preocupação e urgência, e não apenas falta de conhecimentos. Todos somos potenciais vítimas de burla, mas os idosos estão particularmente expostos a este tipo de crime. Não por serem ingénuos, mas porque, em geral, têm menor familiaridade com as novas tecnologias e os atuais meios de pagamento, sentindo mais dificuldades em reconhecer técnicas de manipulação digital cada vez mais sofisticadas. Além disso, tendem a confiar mais em pessoas ou entidades que aparentam autoridade, podem enfrentar situações de isolamento e solidão e ainda recear desobedecer e contrariar alguém. A ansiedade provocada por mensagens urgentes e a vergonha de admitir que foram enganados aumentam igualmente a sua vulnerabilidade.

Ser vítima de uma burla não se resume à perda momentânea de dinheiro. Pode provocar graves dificuldades económicas e, em alguns casos, conduzir à perda das poupanças acumuladas ao longo de uma vida. Contudo, as consequências extravasam largamente a dimensão financeira, podendo traduzir-se em ansiedade, medo, sentimentos de insegurança, vergonha e culpa, perda de confiança nos outros, isolamento e diminuição da autonomia. Podem ainda surgir conflitos familiares e o receio de voltar a utilizar o telefone, a internet ou os serviços bancários.

As burlas presenciais e digitais dirigidas aos idosos têm aumentado em diversidade e sofisticação, exigindo uma resposta mais ampla do que o simples e habitual conselho: «tenha cuidado». A sua prevenção deve ser assumida de forma concertada e envolver diferentes níveis de responsabilidade: os próprios idosos, as famílias e as comunidades, as instituições (bancos e empresas), o Estado, as autarquias, as forças de segurança e os meios de comunicação social.

Desta forma, as sugestões ao idoso passam por: desconfiar de pedidos urgentes; nunca fornecer códigos, palavras-passe ou dados bancários; confirmar a identidade de quem contacta; não abrir ligações suspeitas; e principalmente pedir ajuda antes de tomar decisões e não ter vergonha de falar sobre uma situação estranha. Deverá existir uma preocupação acrescida com a proteção da privacidade nas redes sociais, evitando a divulgação de informações pessoais suscetíveis de serem utilizadas por burlões para conhecer os hábitos, identificar fragilidades e manipular potenciais vítimas.

A família e a comunidade desempenham um papel fundamental na prevenção das burlas, devendo manter um contacto regular com os idosos, alertando-os para os riscos sem os infantilizar e ajudando-os, por exemplo, a configurar os telemóveis e as aplicações digitais. É igualmente importante criar um ambiente de confiança, no qual se sintam à vontade para pedir ajuda sem receio de críticas ou julgamentos, bem como estar atento a alterações de comportamento ou a movimentos financeiros invulgares.

As instituições, nomeadamente os bancos e as empresas, podem contribuir para minimizar este problema, reforçando os mecanismos de deteção de operações suspeitas, criando procedimentos simples e acessíveis, disponibilizando apoio especializado e evitando a implementação de sistemas digitais excessivamente complexos. Devem também apostar numa comunicação preventiva, clara e adaptada às necessidades da população idosa.

Mas também o Estado, as autarquias, as forças de segurança e os meios de comunicação social têm um papel essencial na prevenção e no combate a este fenómeno. Podem contribuir através da promoção de campanhas, da realização de sessões presenciais de literacia digital e da divulgação de exemplos reais de burlas, alertando para os métodos mais utilizados. O processo de denúncia deve ser simples, acessível e célere. Acima de tudo, é fundamental reforçar a investigação, a identificação e a responsabilização dos burlões, para que a prevenção não se limite à transferência da responsabilidade para as potenciais vítimas.

Proteger os idosos não significa retirar-lhes autonomia, pelo contrário: significa dar-lhes informação, ferramentas e apoio para que possam continuar a viver com segurança e independência. Uma sociedade que respeita os seus idosos não os deixa sozinhos perante novas formas de fraude. Protegê-los não é tratá-los como incapazes: é garantir que a confiança, a autonomia e a dignidade não se transformam em vulnerabilidades exploradas por outros.

No liberalismo defendemos um Estado pequeno, mas forte nas suas funções essenciais: capaz de garantir segurança, combater o crime e proteger os cidadãos mais vulneráveis, sem substituir a sua autonomia nem limitar a sua liberdade.

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Teresa Monteiro

9 agosto 2026