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As férias não servem para fugir da vida

Há quem chegue às férias como quem cruza a meta de uma maratona, sabendo que, em breve, começará outra corrida. Depois de meses de agendas sobrelotadas, reuniões, prazos e notificações, sonha-se com o momento de desligar – de preferência num lugar com boa cobertura de rede, para que todos acompanhem o desligamento.

Mas descansar será apenas interromper o trabalho? Ou exigirá aprender a deixar, por alguns dias, de viver como se tudo dependesse da nossa rapidez?

Transformámos a velocidade numa virtude moral. Quem responde imediatamente, acumula tarefas e declara não ter um minuto parece ter direito à exaustão. O cansaço tornou-se uma condecoração social: raramente se sabe por que mérito foi atribuída, mas exibe-se com orgulho.

Esta lógica viaja connosco. Mudam os cenários, conserva-se o ritmo. É preciso visitar, experimentar, fotografar, publicar e provar que estamos a descansar de forma memorável. Há programas de férias tão rigorosos que quase exigem reunião preparatória e relatório final. Continuamos a correr, apenas em direção a praias, monumentos e restaurantes recomendados por desconhecidos.

Não admira que tantas pessoas regressem cansadas. Descansaram do emprego, mas não da obrigação de produzir acontecimentos. Trocaram a lista de tarefas pela das experiências «imperdíveis», transformando uma tarde sem programa numa oportunidade desperdiçada.

A natureza conhece outra sabedoria. Nenhuma árvore floresce todo o ano, nenhum campo produz sem pausa. Há estações de crescimento visível e tempos em que quase nada acontece à superfície, embora as raízes continuem o seu trabalho.

As férias não deveriam servir para fugir da vida, mas para regressar a ela com maior inteireza. Não suspendem quem somos: retiram as funções atrás das quais nos escondemos. Sem agenda, cargo ou urgência, talvez descubramos que já não sabemos estar onde estamos sem procurar outra coisa para fazer.

Descansar é reaprender a atenção. Às pessoas que a rotina transformou em paisagem. Ao corpo, tantas vezes tratado como um funcionário indisciplinado, sempre aquém das metas impostas. Aos lugares, aos silêncios e aos pensamentos que abafamos com ruído.

Talvez a pergunta decisiva de agosto não seja «o que vou fazer nas férias?», mas «a que estou a dar a minha vida?». Alimentamos sempre alguma coisa: preocupações ou esperança, ressentimentos ou gratidão, comparações ou vínculos. E aquilo que alimentamos cresce, mesmo quando culpamos o algoritmo, o trânsito ou os outros.

As férias permitem escolher com maior liberdade. Descobrir que nem todas as mensagens exigem resposta imediata e que o mundo continua a girar durante algumas horas sem supervisão. Há conversas que pedem demora, amizades que necessitam de presença e familiares que não precisam de mais presentes, mas de presença.

Também por isso não deveríamos descansar com culpa. A exaustão nunca foi prova segura de virtude. Uma pessoa permanentemente cansada perde capacidade de escutar, discernir e cuidar, embora conserve energia suficiente para explicar aos outros como devem organizar a vida.

Descansar não é abandonar responsabilidades. É aceitar que não somos indispensáveis em permanência. O mundo continua enquanto dormimos, caminhamos junto ao mar ou contemplamos uma tarde sem a converter em conteúdo. Reconhecer esse limite é uma forma discreta de liberdade.

Quando setembro chegar, regressaremos às exigências quotidianas. Mas as férias terão sido uma oportunidade perdida se voltarmos exatamente iguais, apenas com mais fotografias e menos espaço no telemóvel. As melhores não são as que acumulam mais quilómetros, mas as que nos devolvem prioridades mais nítidas, relações mais presentes e uma vida menos governada pela pressa.

Talvez seja esse o verdadeiro descanso: não fugir da vida, mas deixar de correr o suficiente para perceber onde vale a pena permanecer.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

8 agosto 2026