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O «preço da pressa»

1. Coisa estranha, esta. É no tempo que não temos tempo. É no tempo que nos falta o tempo. Eis o paradoxo abissal, em que cada vez mais nos atolamos, mas sobre o qual raramente pensamos.

2. Por isso, não andamos; corremos. Por isso, quando esperamos, sobressaltamo-nos. Por isso, em vez de falar, ralhamos, gritamos.

3. Ralhamos em multidão, ralhamos na solidão. Ralhamos com os outros e não deixamos até de ralhar connosco. Ralhamos a falar e ralhamos a escrever, sobretudo – e, quase sempre, furiosamente – nas redes sociais.

4. Aliás, já Raul Brandão tinha notado que «a verdadeira história é a história dos gritos». É certo que, em muitas ocasiões, não há alternativa. O referido escritor também achava que «a história é dor». E, perante a dor, se há quem cale, são muitos mais os que gritam.

5. Acontece que não é só a dor – de uma doença ou de uma injustiça – que faz gritar. É toda uma enfermidade que se apoderou de nós. Já não sabemos estar de outra maneira senão a gritar, a atropelar, a agredir.

6. A situação do mundo é de conflito. Mas será que o estado de cada pessoa do mundo é de paz? Para haver paz em nós, é preciso que haja serenidade, calma (cf. Is 30, 15). E muito menor ruído.

7. Já o pescador do conto de Edgar Allan Poe, na iminência de ser devorado por um redemoinho, não conseguia pensar nem decidir por causa do vento e dos jactos de água: «Eles cegam, ensurdecem e asfixiam». Na hora que passa, estamos a ser cegados, ensurdecidos e asfixiados por hordas de vendavais e jactos de água impiedosos. Muitos deles instalaram-se dentro de nós. E, à força de tanta agitação, paralisam-nos e desfiguram-nos.

8. Só ficticiamente é que a pressa se torna sinal de vitalidade. Mas, se pensarmos bem, a pressa bloqueia-nos. Stephen Bertman lançou o alerta quando nos avisou para o «preço da pressa».

9. É um preço demasiado elevado que está a ser pago. Esta humanidade acelerada como que «empurra» a felicidade para uma miragem inalcançável. Por conseguinte, «se não queremos ser optimistas quanto ao futuro do pessimismo» (Jean Rostand), procuremos «desacelerar».

10. Até porque, como advertiu Milan Kundera, «quando as coisas acontecem depressa demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo». É isto o que sentimos. Será isto que queremos?

João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira

14 julho 2026